segunda-feira, 15 de junho de 2015

Querendo ou não, você é livre

Imagem para Você é livre, goste ou não
Certa noite, eu fui jantar com minha família em um restaurante Tailandês. Eles nos colocaram perto do fundo, não muito distantes da porta da cozinha.
Uma garçonete muito irrequieta nos trouxe os menus, encheu nossos copos d'água e nos disse para avisá-la se precisássemos de algo ou se tivéssemos alguma dúvida sobre qualquer coisa.
Quando ela retornou, fizemos nosso pedido. "Perfeito!", disse ela, com um grande sorriso e levando nossos menus. Ela se dirigiu à cozinha. Assim que passou pela porta, sua voz mudou. Ela conversava com a equipe e nós podíamos ouvir cada palavra.
“Ó, Meu Deus, eu estava tão mal hoje pela manhã! Não conseguia parar de vomitar. Meu namorado teve que segurar meu cabelo para trás, para mim." Ela prosseguiu falando sobre a corrida até o bar, os drinks, a corrida do taxi, os amigos estúpidos que não apareceram. Muitos detalhes e palavrões.
Então ela veio pela porta novamente, sua cara de garçonete retornou, e pegou os pedidos de mais algumas mesas. Ela retornou à cozinha novamente. Mais brincadeiras profanas. Quando trouxe nossa comida, ela tinha um largo e completo sorriso e foi realmente difícil não sorrir.
Na hora, eu não sabia, mas Jean-Paul Sartre escreveu sobre uma cena semelhante para ilustrar uma tendência humana que ele chamou de má fé. Seu garçom em um café parecia estar completamente enfeitiçado pelo seu papel como servente. Se movia muito rápido, de forma muito apressada. Ele falou sobre o prato do dia com um entusiasmo que nenhuma comida na vida real poderia fornecer. Sua gesticulação era tão ridiculamente de garçom que ele parecia ter perdido a consciência do fato de que ele era uma pessoa com livre arbítrio, como se não houvesse nada além do seu cargo atual.
Sartre acreditava que temos muito mais liberdade do que tendemos a reconhecer. Nós habitualmente negamos isso para nos protegermos do horror que é aceitar a completa responsabilidade sobre nossas vidas. A cada instante, somos livres para agir da forma que quisermos, mas frequentemente agimos como se as circunstâncias tivessem reduzido nossas opções a uma ou duas formas de seguir adiante.
Isto é má fé: quando convencemos a nós mesmos que somos menos livres do que realmente somos, para que não precisemos nos sentir responsáveis pelo que fazemos, em última análise, de nós mesmos. Realmente parece que você precisa levantar às 7h toda segunda-feira, porque restrições como seu trabalho, a agenda da sua família e suas necessidades corporais não lhe dão outra escolha. Mas isto não é verdade — você pode programar seu alarme para qualquer hora e é livre para explorar o que muda na sua vida quando você faz isso. Você não precisa fazer as coisas da forma que sempre as fez, e isso é verdade em qualquer momento da sua vida. Ainda assim, nos sentimos em um caminho extremamente rígido a maior parte do tempo.
Nós costumamos pensar sobre a liberdade como algo que pode tornar a vida apenas mais fácil, mas ela pode, na realidade, ser algo opressivo e até mesmo assustador. Pense nisso: nós podemos pegar, a qualquer momento, qualquer uma das infinitas estradas que nos conduzem ao futuro, e nada menos que todo o resto da nossa vida se desdobrará baseada em cada escolha. Então pode ser muito aliviador dizermos para nós mesmos que temos menos alternativas disponíveis, ou até que não temos escolha.
Em outras palavras, ainda que queiramos a melhor vida possível, se a vida tiver que ser algo decepcionante, nós ao menos gostaríamos que isso fosse culpa de outra pessoa.

Quando a liberdade assusta, fingimos que ela não existe

Tão logo eu aprendi sobre o conceito de má fé, comecei a perceber que sou culpado dela o tempo todo. Eu posso deixar para depois uma estressante, porém valiosa ligação telefônica até que ela já não seja uma opção possível, para então dizer a mim mesmo que a oportunidade me escapou por entre os dedos acidentalmente. Posso fingir não ter ouvido um comentário crítico, para que eu não precise decidir como responder a ele. Eu costumo dizer a mim mesmo que não consigo fazer nenhum trabalho de valor a menos que eu tenha duas horas ininterruptas para fazê-lo.
Eu tenho um longo histórico de má fé. Talvez você também tenha. No ensino médio, eu me lembro de ter ido o mínimo possível atrás de oportunidades escolares, pois achava melhor não me inscrever para alguma delas do que me inscrever e vê-la ser atribuída a outra pessoa. Em seguida, eu poderia até reclamar que um cara como eu jamais poderia competir com todos os outros alunos exemplares que trocavam ideias com os professores.
Eu também fiz uso de má fé para racionalizar sobre meus níveis extremos de timidez, tornando a vida muito mais difícil neste processo. Alguma parte de mim sabia que ser um adulto funcional significava aprender como se envolver em um bate-papo. Mas isso era assustador, então eu disse a mim mesmo que bate-papos eram desinteressantes e não tinham valor algum, e que eu me abstinha deles sem motivo, não por medo. Como muitas pessoas extremamente tímidas, eu não marcava encontros no ensino médio porque tinha medo da rejeição, mas dizia a mim mesmo que o motivo era meu alto padrão de exigência.
Provavelmente todos nós já fizemos esta: você fica temendo uma das tarefas da sua lista porque ela demanda uma decisão difícil. Então você a deixa de lado, ignorando lembretes que atribuiu para si mesmo, colocando coisas menos importantes na frente dela. Você faz isso ainda que uma parte de você saiba que a tarefa terá que ser feita de qualquer forma e que atrasos apenas tornam as coisas piores para você. Você cria desculpas para justificar por que não pode fazer a tarefa hoje — "Eu deveria ter uma noite de sono melhor antes de começar a lidar com isso" — mesmo que ninguém além de você mesmo está sendo enganado, e nem mesmo você se beneficie do fingimento em afirmar que ainda não pode fazer a tarefa. Mas você de fato recebe aquela dose de alívio quando cria uma nova desculpa.
Sartre Todos estes tipos de comportamento constituem formas de negar nossa própria liberdade. Se elencamos todas as nossas opções, a coisa óbvia a ser feita pode ser algo intimidador. Uma vez que você reconhece que de fato não é impossível parar de fumar, então você simplesmente precisa parar de fumar. Quando a liberdade assusta, fingimos que ela não existe.
Má fé é mais fácil de ser identificada nos outros do que em nós mesmos. É praticamente certo que você já conheceu pessoas que reclamam de sua situação, insistindo que ela está fora de seu controle quando obviamente não está. Quando é realmente óbvio, dizemos que ela está se fazendo de vítima. Contamos para nós mesmos histórias que nos colocam numa condição de objetos inanimados — como bolas em uma mesa de bilhar, ao invés de como jogadores.
Um antigo amigo meu expressava perpetuamente uma insatisfação com seu corpo acima do peso, e tinha um motivo nocauteador para cada possível medida que pudesse tomar para perder peso. Correr prejudica os joelhos. Restrições na dieta levam a distúrbios alimentares. Levantamento de pesos é para estúpidos. Academias só querem tirar vantagem. Obviamente estas não eram barreiras reais, mas sim formas de alegar que as circunsâncias por si só eram as responsáveis por seus problemas, e que ele não tinha outra opção.
Essencialmente, todas as instâncias de má fé são encenações de algum tipo, nas quais agimos como se estivéssemos de mãos atadas. Ficamos tentando nos convencer (frequentemente através do convencimento de terceiros) que realmente não conseguimos fazer a coisa certa, quando na verdade nós simplesmente não queremos fazê-la.

A vida é um campo, não um corredor

A má fé nos leva a viver de forma não-autêntica — vivendo valores dos outros por medo de vivermos os nossos. Isto é inerentemente auto-defesa.
Sartre queria que realmente sentíssemos nossa liberdade, como uma sensação quase física — a sensação de caminhar por um corredor, percebendo então que você esteve em um campo o tempo todo. É um sentimento emocionante ir de forma consciente pelo outro caminho em um momento no qual você normalmente agiria com má fé. Faz você sentir como se tivesse descoberto um lugar oculto de novas habilidades e possibilidades, e que estas salas secretas estão em toda parte.
Onde quer que você tenha um sentimento de "isto é exatamente como deveria ser", provavelmente ali existe um pouco de má fé. Por muitos anos eu pensava não ser capaz de escrever um artigo depois das 17h — a energia e o foco simplesmente não estão mais presentes, então estou praticamente sentenciado a passar o fim da tarde lendo, assistindo algum programa, saindo ou fazendo algo que não seja trabalhar.
Não tenho ideia do quanto esta velha e autodestrutiva mentira já me custou. Não existe uma barreira às 17h. A linha é completamente imaginária. Existe apenas uma forte aversão ao meu trabalho quando esta hora do dia se aproxima e eu finjo que isto é algum tipo de lei natural.
Nossas vidas são cheias de linhas imaginárias. A hora de ir dormir não é algo real. É uma escolha, todas as vezes. Ir ao trabalho é uma escolha. Almoçar é uma escolha. Colocarmo-nos pra baixo é uma escolha. Cumprir um prazo é uma escolha, e perdê-lo é uma escolha, tanto quanto queiramos acreditar que cada um dos resultados tenha sido inevitável o tempo todo.
A percepção da má fé não a cura, mas a torna mais difícil de ignorar. Podemos nos permitir sofrer por causa de certos problemas durante anos, se pensarmos que eles estão acontecendo em nós, como ocorre com o clima. Mas uma vez que você perceba uma condição particular da sua vida como fundamentalmente voluntária, tal condição está com os dias contados.
Eu não sou capaz de descrever para você o quão forte o sentimento é, mas assim que passa das 17h, eu realmente sinto como se não conseguisse escrever. É como se a parte do meu cérebro responsável por esta tarefa se fechasse como a porta de uma loja num fim de tarde de domingo.
Mas quando eu de fato me sento às seis ou sete ou oito da noite e começo a escrever, as palavras vêm como em qualquer outro horário. A porta sempre esteve aberta; eu apenas desviei dela de novo e de novo e de novo.
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Foto do tunel por Joe Del Tufo. Foto de Sartre de autoria desconhecida e domínio público.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O que é, na verdade, a paz interior

Imagem para O que é, na verdade, a paz interior
Se você é alguém que lê livros ou blogs sobre bem-estar ou espiritualidade, uma ideia com a qual você vai se deparar frequentemente é a da existência de um pano de fundo de paz ou silêncio por trás de tudo, e as pessoas atentas podem "se conectar" ou "vibrar" com ele ou não experimentá-lo.
Isso é suficiente para disparar o "alarme anti-bobagem" de muitas pessoas, porque sugere algum tipo de benevolência ou personalidade nos bastidores do universo.
Mas, na minha experiência, há definitivamente algo a respeito desta noção. Eu encontro essa "paz interior" regularmente, e não parece importar muito o que está acontecendo em primeiro plano. Quando eu estou chateado ou então desatento, geralmente não a encontro (nem mesmo me lembro de procurá-la). Quando, ao contrário, eu a encontro, geralmente está por trás de uma cena de rua movimentada, na forma de um parque tranquilo.
Acredito que o status de "estar lá fora", na ideia da "paz como pano de fundo", é apenas mais um exemplo de maluquice por associação — muitas pessoas que falam sobre isso também podem falar com naturalidade sobre cura através de cristais e comunhão com árvores, e a pessoa cética acaba vendo isso como "mais do mesmo". Muitas ideias úteis provavelmente acabam ignoradas em função disso.
Mas não há nenhuma razão para encarar isso como um fato sobrenatural. É apenas uma mudança na nossa maneira de observar, semelhante à forma como podemos alternar entre perceber o enredo de uma novela e as palavras impressas em suas páginas.
Lembro-me de estar num carro em algum lugar com três amigos, e dois deles estavam em uma discussão acalorada. Eu podia sentir que estava ficando perturbado com a raiva e o ruído crescentes, conforme eles continuavam. Todos nós já vivemos esse tipo de caos contagioso ao ouvir uma notícia violenta na TV ou no rádio, ou apenas por estar perto de pessoas vingativas. Perturbações no mundo ao seu redor tendem a agitar as coisas, de forma correspondente, dentro de você.
Mas então algo mudou na minha percepção e eu senti esta ligação se dissolver. Eu voltei a estar em sintonia com o quão calmo ou quieto tudo estava antes dos meus amigos começarem a discussão, porque aquilo parecia ainda existir ali, por trás das palavras e ruído.
Com essa anedota eu não estou tentando descrever algum momento em que minha vida tenha mudado, mas apenas citar um momento, dentre as centenas de exemplos, onde toquei este plano de fundo de paz. Às vezes ele me encontra por acaso, mas mais frequentemente eu o encontro, porque acontece naquele momento em que procuro por ele.
Por que, no fundo, haveria paz? Porque, para que qualquer coisa aconteça (incluindo coisas não pacíficas), deve haver um espaço para que esta coisa aconteça, e espaço é intrinsecamente desprovido de conflitos. Por exemplo, o ruído exige silêncio para que possa surgir e passar. Não importa o quanto de ruído acontece em primeiro plano, não poderia ser ruído, se não tivesse anteriormente o silêncio como sua tela de fundo.
O espaço no qual nossa vida acontece continua presente, independentemente do que acontece nele. Parece haver paz neste espaço, e parece que podemos percebê-la às vezes, quando prestamos atenção.
E eu certamente não sou o primeiro a falar sobre isso. Zen é cheio de referências ao som de uma mão batendo palmas, o córrego da montanha distante, o silêncio de onde todo o som surge — todos são apontadores estilizados para o pano de fundo vazio e pacífico de toda experiência. Eckhart Tolle (que pode ou não disparar seu alarme anti-besteira) dedica um capítulo a ele em A Nova Terra (The New Earth, em inglês), embora eu não soubesse do que ele estava falando quando o li pela primeira vez. Fãs da Bíblia citam "A paz que excede todo o entendimento", em Filipenses 4:7¹ (mas eles naturalmente atribuem essa qualidade ao poder de Deus, o que impede sua consideração pelo público não religioso).
Este é um grande tema, em particular nos círculos de meditação, tanto nos seculares quanto nos religiosos, porque na meditação ele torna-se óbvio. É comum fazer com que soe como algo místico, mas independentemente de suas crenças, você não pode meditar por muito tempo sem perceber que há algum tipo de plano de fundo, ou espaço, no qual todos os fenômenos acontecem. Você pode percebê-lo da mesma forma que percebe as coisas que estão nele.

Você sempre esteve no espaço

Tendemos usar a palavra espaço para nos referirmos a lugares onde as coisas não são — lugares onde há espaço para outra mesa de canto ou outro veículo ou outro compromisso — mas isso apenas atesta a nossa completa preocupação com as coisas e formas em nossas vidas, e nossa quase completa cegueira a respeito do espaço no qual elas todas estão acontecendo.
Nós imaginamos que temos de deixar a atmosfera para estarmos de fato "no espaço", mas o espaço é aqui embaixo também. Ainda está presente, não importa se há algo nele ou não.
Pense nisso desta maneira: quando um planeta voa através do espaço em seu caminho ao redor do sol, o espaço não tem que "sair da frente", fluindo ao redor do planeta, da mesma forma que o ar deve fluir em torno de um avião. O planeta pode simplesmente ir diretamente através do espaço. Espaço e matéria não entram em conflito. Eles podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, e de fato não poderia existir nenhum planeta ou avião, ou ar — ou, também neste sentido, discussões em carros, ou qualquer outra coisa em sua vida — sem espaço para que essas coisas pudessem habita-lo.
Então isso significa que, em todos os lugares onde há alguma coisa ou coisas, há também espaço. O espaço permeia absolutamente tudo, incluindo seu corpo, suas paredes, sua cidade, e cada cena na qual você já se encontrou.
Perceber a presença de espaço nessas cenas (e particularmente em seu corpo) é perceber uma corrente de paz. Isso faz sentido, se você pensar bem. O espaço é intrinsecamente pacífico. Ele não tem forma, e por isso não fica no caminho de qualquer coisa ou conflita com qualquer coisa. Ele não amontoa coisas, nem mesmo torna qualquer coisa impossível. Ele nunca pode ser prejudicado por aquilo que o atravessa, e nunca se degrada, deteriora ou suja. É confiável, imparcial e acolhedor para tudo, e mesmo quando há barulho ou caos acontecendo nele, o espaço em si é absolutamente tranquilo.
Pode não parecer importante que o espaço seja sempre intrinsecamente pacífico, quando seu conteúdo não é. Tudo o que posso dizer é que há um efeito estabilizador em perceber esta eterna e acolhedora qualidade em sua experiência. Ela coloca em perspeciva o conteúdo em constante mudança, ajudando você a perceber que tudo é relativo e fugaz, além de ser também fascinante pelo simples fato de estar acontecendo.
Perceber o espaço que está presente por trás de tudo lhe dá uma estranha sensação de espaço pessoal, como de repente você tivesse mais opções. E você tem, porque você não está acostumado com esta ideia de coisas e objetos passando pelo seu espaço vizinho imediato.
Durante o verão, motocicletas barulhentas rasgam a rua do lado de fora da minha janela. Quando eu perco de vista o pano de fundo, o silêncio que está lá por trás do ruído, essas motos realmente me incomodam. Quando eu estou prestando atenção no silêncio por trás do ruído, no espaço sonoro no qual o ruído aparece, está tudo bem. Mais do que bem. Continua não sendo meu ruído favorito, mas da forma como ele vem e vai, é como se fosse bonito.
É algo difícil de transmitir, e faz você parecer um pouco falso quando tenta. Estamos tão condicionados a ver o mundo apenas em termos de suas coisas e formas, que estamos sujeitos a considerar o espaço como sem sentido ou irrelevante, ou uma questão de semântica. Algumas pessoas não vão tirar nada de útil deste artigo e isso é inevitável. Alguns de vocês vão.
É só uma questão de perceber e valorizar, ao longo do tempo , o espaço ininterrupto que permeia você e tudo ao seu redor. Estou sentado na minha mesa, e eu posso sentir o campo de espaço que se estende através do meu corpo e da sala em que eu estou, até a rua e sua multidão de verão, através dos edifícios por trás deles, e o parque atrás dos edifícios, e para além do centro da cidade. Paredes, o próprio chão, o mau tempo, motocicletas, a gritaria, a violência, os planetas e as estrelas não o dividem ou o impedem nem um pouco, e tem sido sempre assim, quer eu estivesse prestando atenção, quer não.
¹O texto original cita o versículo da Bíblia em inglês.
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Foto de THOMAS Leuthard.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

domingo, 13 de abril de 2014

Por que a maioria dos ativistas da internet não mudam mente alguma

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No Facebook, eu silenciosamente paro de seguir amigos que postam de forma raivosa sobre alguma causa, mesmo se estiverem certos. Eu não quero ser atacado pela "verdade", independente do quão verdadeira ela seja.
Eu entendo porquê eles fazem isso. Eu já fiz isso. A ignorância — sobre pesca excessiva, fábricas de filhotes, sexismo normalizado, sobre o que as vacinas podem e não podem fazer — pode ser genuinamente perigosa, e o desejo de se reduzir esta ignorância é compreensível.
Alguns conseguem fazer isso de forma cuidadosa e diplomática, e eu tenho aprendido muito destas pessoas.
Mas a maioria dos ativistas da internet deixam desprezo se infiltrar na mensagem. O ponto acaba sendo fazer com que os outros estejam errados, ao invés de tentar ajudá-los a estarem certos. Simplesmente visite virtualmente qualquer fórum de discussão ligado a alguma causa. É contraditório. É normal culpar as pessoas pela ignorância delas.
Ignorância, se realmente for isso, não é algo pelo que as pessoas possam ser tranquilamente responsabilizadas. Nós não escolhemos o que não entender, sobre o que não sermos ensinados, o que não nos darmos conta da importância.
A ignorância é cega para ela mesma. Enquanto você está tentando retificar a ignorância de alguém, é fácil esquecer que você também é ignorante, de formas que você não tem como saber.
Independente de quem você seja, tem de admitir que existem infinitas coisas sobre as quais você não sabe, e você não sabe que não sabe. Nenhum de nós está livre da ignorância. Então, em nossas tentativas de reduzir a ignorância, devemos nos aproximar dos outros como companheiros de aprendizagem, ao invés apenas apontar culpados.
A pior coisa que uma pessoa pode fazer para sua postura é entrega-la empacotada com um julgamento moral. Isto elimina efetivamente a liberdade da outra pessoa de concordar, e pode até mesmo criar um oponente comprometido com sua causa. Fazer isso com um monte de pessoas reduz completamente a receptividade do público para com a causa. Mesmo que ela seja verdadeira, quando você joga-la em alguém, ela vai rebater ao invés de aderir.
Aprender significa deixar uma crença atual ir embora, e uma pessoa precisa estar em um estado particularmente receptivo para fazer isso. Mesmo assim, a maioria das tentativas no ativismo de internet ignora abertamente as pessoas que quer (ostensivamente) educar.
Mudar mentes é um trabalho muito delicado. Deve-se tomar muito cuidado para não expressar desprezo pelas pessoas que (ainda) não vêem da sua maneira. Coloque as pessoas na defensiva e suas mentes estão fechadas até que se sintam seguras novamente. No momento em que uma discussão desencadeia uma reação defensiva, a possibilidade de aprender qualquer coisa se foi para aquela pessoa — apesar deste ponto de conflito ser onde a maioria do "ativismo" online inicia.
Esta delicadeza crucial é ameaçada pela nossa frustração com crenças que nós vemos como ignorantes. É difícil não ficar bravo com movimentos tão carente de informações como os anti-vacina, agora que estamos vendo surtos domésticos de sarampo e coqueluche.
Raiva é a resposta mais fácil, e também a mais destrutiva. O que você acha que deu início ao movimento anti-vacina? Provavelmente o mesmo tipo de raiva: "O que nos disseram estava errado e está colocando nossas crianças em risco. As pessoas precisam ficar espertas!"
Mesmo se um dos lados estiver factualmente correto — e este não é sempre o caso — quanto mais raiva for direcionada ao outro lado, menos daquelas pessoas se sentirá segura para mudar de ideia. Encurralar pessoas e contrariá-las apenas fortalece o lado oposto e a racionalização, além de alimentar a "ciência ruim", porque neste ponto, tudo se resume a troca de ruído emocional.
Este tipo de argumentação é uma abordagem quase que perfeitamente inútil para redução da ignorância. Ajudar as pessoas a entenderem algo (se isso é realmente o que o argumentador deseja) é o oposto de brigar.
O sentimento de se estar certo é algo que nos atrái extremamente. É bom estar certo e é péssimo quando estar errado. Mas a circunstância em que temos este sentimento ou não, tem pouco a ver com o quanto os fatos realmente nos apóiam, razão pela qual o vício nesta droga é tão perigoso.
Uma vez que você se prendeu ao sentimento de estar certo, ele se torna mais importante do que de fato estar certo. Todos nós já nos encontramos em meio a debates sem sentido com amigos: Crash foi um filme bom? O Bono está realmente ajudando alguém? Você pode ter percebido que, nestas discussões, não queremos que a outra pessoa exponha um bom argumento, mesmo que tal exposição pudesse nos deixar com uma postura mais inteligente do que antes. Ao invés disso, queremos que sejam feitos apontamentos estúpidos que façam com que o nosso pareça bom. Queremos muito mais que os outros estejam errados do que aprender alguma coisa.
Se você estivesse errado, gostaria que alguém lhe dissesse? Talvez, se isso fosse feito de forma privada e simpática. Fazer isso não é uma habilidade comum. Se você quer aprender como falar com as pessoas sobre qualquer coisa sem coloca-las na defensiva, o brilhante livro Nonviolent Communication (Comunicação Não-Violenta) de Marshall Rosenberg é sua Bíblia. (Na minha humilde opinião.)
É difícil ignorar a tentação de fazer alguém se sentir equivocado. Eu não sou muito bom nisso. No processo de escrita deste artigo, eu notei raiva emergindo das nas palavras várias vezes, e fiz o melhor que pude para mante-la fora do texto. Até porque meu objetivo aqui era "curar" um tipo particular de ignorância.
Este, no entanto, é sempre um terreno movediço, pois você tem que iniciar com uma crença bastante importante para si: "Eu tenho uma verdade que você não tem, e eu vou dá-la a você." Eu tentei manter pragmáticos meus objetivos aqui e não sucumbir ao impulso de atacar e ditar. Mas tenho certeza que isso ainda aparece sem que eu note.
Eu acho que estou certo, mas é possível que eu esteja sendo ignorante de forma tal que eu não entenda. E alguns podem dizer isso na seção de comentários, e novamente eu terei que monitorar minha tentação em oprimir visões contrárias com retórica. Se eu for habilidoso o suficiente, eu talvez consiga genuinamente considerar concordar com eles.
Até mesmo agora eu temo não conseguir agir assim quando tiver a chance. Sou muito bom em enrolação retórica, ou ao menos bom o suficiente para me satisfazer quando faço uso dela. O histórico de comentários deste blog é recheado de estrangulamentos verbais que eu apliquei, a maioria deles motivados pela forma como as pessoas demonstraram que não concordavam comigo. Espero que desta vez meus caluniadores sejam gentis e diplomáticos, porque esta rara forma de generosidade me dará a melhor chance possível de aprender alguma coisa.
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Foto de MKHMARKETING.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

9 epifanias alucinantes que viraram meu mundo de cabeça para baixo

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Com o passar dos anos, aprendi dezenas de pequenos truques e percepções para tornar a vida mais completa. Eles contribuíram para uma melhora significativa para facilitar e melhorar a qualidade da minha vida cotidiana. Mas as maiores descobertas vieram de uma série de percepções que sacudiram meu mundo completamente e redefiniram para sempre minha realidade.
O mundo agora parece ser completamente diferente daquele no qual eu vivi há aproximadamente dez anos atrás, quando comecei a pesquisar sobre a mecânica da qualidade de vida. O que de fato mudou não foi o mundo (e suas pessoas), mas como eu passei a vê-lo.
Talvez você já teve algumas destas percepções. Ou talvez esteja a ponto de tê-las.

1. Você não é sua mente.

A primeira vez que ouvi alguém dizer isso, não gostei nem um pouco. O que mais eu poderia ser? Eu tinha certeza que o tagarela mental na minha cabeça era o "eu" principal, para o qual todas as experiências da minha vida aconteciam.
Hoje eu vejo de forma bem clara que a vida não é nada além de passagens por experiências e que meus pensamentos são apenas mais uma categoria de coisas que eu experimento. Pensamentos não são mais fundamentais do que cheiros, visões e sons. Como qualquer experiência, eles surgem em minha consciência, eles têm uma certa textura e então eles cedem espaço a alguma outra coisa.
Se você é capaz de observar seus pensamentos da mesma maneira que observa outros objetos, quem está observando? Não responda rápido demais. Esta questão e suas respostas inexprimíveis são o cerne de todas as grandes religiões e tradições espirituais.

2. A vida se desdobra apenas em momentos.

É claro! Uma vez eu chamei isto de a coisa mais importante que eu já aprendi. Ninguém jamais experimentou qualquer coisa que não fosse parte do desdobrar de um momento único. Isto significa que o único desafio da vida é lidar com o momento único que você está tendo neste exato momento. Antes de me dar conta disso, eu ficava constantemente tentando resolver minha vida inteira — lutando com problemas que na verdade não estavam acontecendo. Qualquer um pode ter vontade de lidar com um momento único presente, desde que esteja verdadeiramente ciente que este é seu único ponto de contato com a vida e, portanto, não há nada além disso que possa ser feito e que seja realmente útil. Ninguém pode lidar com o passado ou com o futuro, porque ambos existem apenas como pensamentos no presente. Mas podemos morrer tentando.

3. A qualidade de vida é determinada pela forma como você lida com seus momentos, não por quais momentos acontecem e quais não.

Eu atualmente considero esta verdade como sendo o "Happiness 101", mas é incrível o quão tentador ainda é ficar no controle de todas as circunstâncias, para tentar assegurar-se de que eu consigo exatamente o que eu quero. Encontrar uma situação indesejada e lidar com ela voluntariamente é a marca de uma pessoa sábia e feliz. Imagine que você se depara com um pneu furado, ficando doente num momento inoportuno, batendo em alguma coisa e quebrando-a — e não sofra nada com isso. Não há nada a temer se você combinar com você mesmo que vai lidar voluntariamente com a adversidade, não importa quando ela surgir. É assim que você torna sua vida melhor. O método típico e lento consiste em torcer para que você eventualmente acumule forças através de suas circunstâncias, de forma que você consiga ter o que quer mais frequentemente. Há uma frase excelente numa música do Modest Mouse que celebra este efeito colateral da sabedoria: Conforme a vida fica mais longa, sentimentos terríveis ficam mais suaves.

4. A maioria da nossa vida é imaginária.

Os seres humanos têm um hábito compulsivo de pensar tão sutil que nos faz perder de vista o fato de que estamos praticamente o tempo todo pensando. A maioria das coisas com as quais interagimos não se trata do mundo propriamente dito, mas de nossas crenças, expectativas e interesses pessoais nele. Temos uma dificuldade enorme em observar algo sem confundir esse algo com os pensamentos que temos a respeito dele, então a maioria das coisas que experimentamos na vida é imaginária. Como disse Mark Twain: "Eu passei por coisas terríveis em minha vida, algumas das quais realmente aconteceram." O melhor remédio que eu encontrei? Cultivar a atenção.

5. Seres humanos evoluíram para sofrer e nós somos os melhores em sofrimento do que em qualquer outra coisa.

Caramba. Não parece uma descoberta muito libertadora. Eu costumava acreditar que, se eu estava sofrendo, significava que havia algo errado comigo — que eu estava vivendo "errado". O sofrimento é completamente humano e completamente normal, e há uma razão muito boa para sua existência. Aquele zumbido persistente de "isso não está muito bom, preciso melhorar", aliado a flashes ocasionais e intensos de horror e adrenalina são o que manteve os seres humanos vivos por milhões de anos. Esta ânsia de mudar ou fugir do momento presente controla quase todo nosso comportamento. É um mecanismo de sobrevivência simples e implacável que funciona absolutamente bem para nos manter vivos, mas tem um efeito colateral péssimo: os seres humanos sofrem muito por natureza. Isto, para mim, redefiniu cada um dos problemas da vida como um tentáculo da condição humana. Tão triste quanto possa parecer, esta percepção é libertadora porque significa: 1) que sofrer não significa necessariamente que minha vida está dando errado, 2) que a bola está sempre na minha quadra, então meu grau de sofrimento está, em última análise, em minhas mãos, e 3) que todos os problemas têm a mesma causa e a mesma solução.

6. A emoção existe para tirar nosso equilíbrio.

Esta descoberta foi um 180 completo do meu velho conceito de emoções. Eu costumava pensar que minhas emoções eram indicadores confiáveis sobre o estado da minha vida — indicando se eu estava no caminho certo ou não. Seus estados emocionais passageiros não podem ser tidos como confiáveis para medir sua auto-estima ou sua situação na vida, mas são ótimos para lhe fazer ver as coisas sem as quais você não vive. O problema é que as emoções nos desequilibram, mas ao mesmo tempo nos tornam mais fortes. Outro mecanismo de sobrevivência com efeitos colaterais desagradáveis.

7. Todas as pessoas operam a partir das mesmas duas motivações: satisfazer seus desejos e fugir de seus sofrimentos.

Aprender isso me permitiu finalmente ver sentido em como as pessoas conseguem machucar as outras tanto. A melhor explicação que eu tinha antes disso era que algumas pessoas eram simplesmente más. Que desculpa. Não importa o tipo de comportamento que as outras pessoas demonstrem, elas estão agindo da forma mais eficiente que são capazes (naquele momento) para satisfazerem um desejo ou aliviar seu sofrimento. Estes são motivos que todos somos capazes de compreender; variamos apenas em método, e os métodos que cada um de nós tem disponível dependem de nossa educação e de nossas experiências de vida, bem como de nosso estado de consciência. Alguns métodos são hábeis e úteis para os outros. Outros são débeis e destrutivos e quase todo comportamento destrutivo é inconsciente. Então não existe bem e mal, mas apenas inteligentes e estúpidos (ou sábios e tolos). Compreender isso chacoalhou completamente minhas antigas noções de moralidade e justiça.

8. Crenças não são nada do que devamos nos orgulhar.

Acreditar em algo não é uma realização. Eu cresci pensando que crenças eram algo do que devíamos nos orgulhar, mas elas não passam de opiniões que alguém se recusa a reconsiderar. Crenças são fáceis. Quanto mais fortes são suas crenças, menos aberto ao crescimento e à sabedoria você está, pois "força da crença" é apenas a intensidade com a qual você resiste a questionar a si próprio. Tão logo você passa a ter orgulho de uma crença, tão logo você pense que ela acrescenta algo a quem você é, você tornou a crença parte do seu ego. Preste atenção a qualquer conversa "teimosa", conservadora ou liberal, sobre suas mais profundas crenças e você estará dando atenção a alguém que nunca vai ouvir o que você diz sobre qualquer assunto que tenha importância para esta pessoa — a não ser que você acredite na mesma coisa. É gratificante falar com propriedade. É gratificante sentir concordância e este enaltecimento é o que os teimosos procuram. Onde quer que exista uma crença, existe uma porta fechada. Assuma as crenças que resistem à sua análise mais honesta e humilde e nunca tenha medo de perdê-las.

9. Objetividade é subjetiva.

A vida é uma experiência subjetiva e da qual não podemos escapar. Toda experiência que eu tenho surge a partir do meu próprio ponto de vista pessoal e não compartilhável. Não há como outra pessoa avaliar minha experiência direta. Não há colaboração real. Isto tem algumas implicações de grande vulta na forma como eu vivo minha vida. A mais imediata é que eu percebo que devo confiar na minha experiência pessoal, pois ninguém mais tem este ângulo e eu tenho apenas este ângulo. Outra é que eu sinto mais admiração pelo mundo que me cerca, ciente de que qualquer compreensão "objetiva" que eu afirmo ter sobre o mundo é construída inteiramente e desde o princípio por mim mesmo. O que eu realmente construo depende dos livros que li, das pessoas que conheci e das experiências que eu tive. Isto significa que eu nunca verei o mundo de forma semelhante a qualquer outra pessoa, o que significa que eu nunca viverei exatamente no mesmo mundo que outra pessoa — e portanto eu não devo permitir que observadores externos sejam a autoridade sobre quem eu sou ou sobre como a vida realmente é para mim. Subjetividade é experiência primária — é vida real, e objetividade é algo que cada um de nós constrói com base nessa vida, dentro de nossas mentes, de forma privada, com o objetivo de explicar o todo. Esta verdade tem implicações de fazer a terra tremer, em especial sobre o sentido da religião e da ciência nas vidas daqueles que a assumem.
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O que você descobriu que fez seu mundo virar de cabeça para baixo?
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Foto de h.koppdelaney
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O sol está sempre se pondo

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Durante o verão, eu tento orientar meu dia de tal forma que, ao pôr-do-sol, eu esteja fora, em um lugar onde não haja nada bloqueando a visão. Pores-do-sol sempre valem a pena.
Eles também são fugazes. Ao longo de qualquer experiência encantadora de pôr-do-sol, sempre há um momento no qual você se dá conta que o seu brilho chegou ao auge e começa a desaparecer. Algumas vezes eu chego na ponte ou no fim da Westbound streed e percebo imediatamente que perdi esse auge.
Quando isso acontece, ao menos eu posso demonstrar estar feliz pelos outros espectadores um pouco distantes a oeste de mim, para os quais o pôr-do-sol apenas começou a ficar brilhante. Este fato é um maravilhoso presente para os seres humanos - o sol está sempre se pondo.
Milhares de milhas além deles, no mesmo momento, madrugadores de certas ilhas do Pacífico estão perstes a vê-lo nascer. O sol está sempre se pondo e sempre nascendo, sempre lá no alto e sempre fora do campo de visão. Objetivamente, isto é tão verdadeiro quanto qualquer outra coisa que saibamos. Ele está sempre se pondo, neste exato momento.
Temos que reconhecer que esta verdade é relativa ao observador. Se não houvesse ninguém observando o pôr-do-sol, não haveria pôr-do-sol.
Eu sonho com frequência com os selvagens pores-do-sol que devam estar acontecendo em um zilhão de diferentes céus lá no espaço, na superfície de outros planetas. Existem trilhões de estrelas, com diferentes cores e intensidades, e cada uma pode ser vista a partir de superfícies distintas e a diferentes distâncias, através de diferentes atmosferas, ao longo de inimagináveis paisagens exóticas.
Mas provavelmente não haja ninguém lá para ver a maioria deles, e portanto eles estão realmente acontecendo apenas na minha imaginação. Um pôr-do-sol, enfim, é uma experiência. Portanto você precisa de um experimentador, no local certo, para que ele exista. Você ainda poderia dizer que existem bilhões de pores-do-sol potencialmente experimentáveis por aí, mas eles não são reais até que alguém esteja parado lá naquele mundo estranho, assistindo um ardente pôr-do-sol duplo, azul e verde, lentamente se dissolvendo por sobre algumas montanhas.
A ciência é de longe a instituição mais útil que temos para dar sentido às nossas experiências, e para prever o que poderemos experimentar futuramente. A forma como fazem isso é a seguinte: um monte de pessoas diferentes observa o mesmo fenômeno a partir de diferentes ângulos, em momentos diferentes, e o discutem e definem um conceito sobre o que é este fenômeno quando nenhuma pessoa em particular o esteja assistindo. Eles reunem todas estas conclusões e colocam em livros, os quais têm a função de descrever como as coisas realmente são, independentemente da forma como você as possa perceber pessoalmente.
Para nós, ou para qualquer um, o universo é realmente composto apenas de experiências, ou ao menos ele não tem sentido concebível algum, exceto pela nossa experiência a seu respeito. E isso significa, portanto, que o que o universo realmente é depende de quem está lá para ter estas experiências. Tudo a respeito do universo sobre o que afirmamos ter conhecimento deve estar baseado em experiências diretas. Nenhuma quantidade de dados ou teoria científica sobre pores-do-sol contém a verdade sobre o que eles são. Um pôr-do-sol só pode ser realmente conhecido como uma experiência fugaz e subjetiva.
Este é o único motivo pelo qual nós temos a ciência - para encontrar padrões por trás de nossas experiências. Estes padrões são úteis para a compreensão, pois eles podem nos ajudar a saber, por exemplo, se um evento próximo está mais propenso a criar uma experiência subjetiva de se ficar molhado da chuva ou uma experiência subjetiva de se ficar queimado do sol. Nós nos importamos com estas coisas, porque elas são experiências, e não há nada mais com o que possamos nos importar, pois isso é tudo que a vida é.
Eu penso que estejamos correndo o risco de nos esquecermos que o conhecimento científico está aí para nos ajudar a compreender os prováveis motivos para as experiências que vivemos e, por consequência, para prever e explicar outras experiências, ao invés de nos dizer como a experiência realmente é. O processo científico tem, seja isso bom ou ruim, ajudado a criar uma imagem mental do universo (a qual deve ser no mínimo levemente diferente para cada um de nós) que explica os padrões por trás de todos os tipos de experiências.
No entanto a consequência disso é que ele sempre funciona da mesma forma, não importa se você está olhando para ele daqui ou dali ou nem mesmo esteja olhando. Isso sugere que verdades sejam absolutas, em regra. Nós construímos essa coisa que chamamos de "objetividade" a partir da coleta e organização de um grande monte de experiências subjetivas de diferentes pessoas, e frequentemente imaginamos que esta objetividade estava lá antes, e subjetividade é como chamamos isso quando uma determinada pessoa vislumbra essa objetividade como verdadeira. Mas objetividade é uma projeção - um modelo mental complexo e mutante que foi construído somente a partir da coleta destes vislumbres subjetivos, e fora deles, nós nem mesmo sabemos o que é isso que estamos vislumbrando.
Nós sabemos agora que esta verdade é frequentemente (ou talvez sempre) relativa. Einstein nos ajudou a começar a perceber que não devemos nos referir às verdades aparentes do universo como absolutas (e desde então as coisas se tornaram ainda mais estranhas). Mas nós ainda insistimos no hábito de imaginar que as assim chamadas verdades "objetivas" estavam lá primeiro, antes de sequer termos testemunhado qualquer uma delas - que o sol de fato não se põe; ele está lá queimando abertamente, não importa quem você seja ou onde esteja. Nós nos curvamos diante deste modelo como uma verdade real, e julgamos que nossa experiência pessoal (o pôr-do-sol propriamente dito) seja algo menos verdadeiro - como se o sol não se pusesse realmente, que isto é apenas uma ilusão, ou ao menos uma visão obscurecida do que está realmente acontecendo.
Eu acho que isso está ao contrário. O pôr-do-sol é real. Este é o fato primário, como são todas as experiências. Nós prestamos extremamente pouca atenção na vida como ela se desdobra em tempo real ao nosso redor e muita atenção nos nossos pensamentos e crenças sobre o que ela realmente é e o que realmente significa. O que é mais importante: quanto dinheiro você tem ou o quão ricamente você se experimenta ser? Nós todos sabemos que é possível uma pessoa ter muito mais riqueza em papel do que outra, no entanto sentindo-se pobre e restrita, enquanto a outra percebe abundância. Estes são estados subjetivos, no entanto eles importam mais na vida real do que o resultado objetivo de fatos físicos sobre tais respectivas situações.
O estado do mundo, por exemplo, é uma verdade relativa. É em grande parte relativa à quantidade de notícias que você assiste. Se você é um viciado em CNN, você vive num mundo mais ansioso e perigoso do que eu. Você pode argumentar o dia todo que trata-se do mesmo mundo, mas tudo o que importa é o mundo que você experimenta, e não como o mundo deveria ser fora da sua experiência.
Então amplie, viva daqui. Não permita que outros lhe digam como é o mundo, pois eles vivem em outro mundo. O que importa é como as coisas parecem ser, a partir da sua perspectiva. A sua qualidade de vida se encaixa na sua perspectiva, não no estado teórico do mundo, ou avaliações "objetivas" de sua situação de vida. Eu apostaria que a maioria ou todos os maiores avanços da sua vida resultaram em uma mudança de perspectiva, ao invés de uma mudança em algo externo. Mudanças de perspectiva devem ser cultivadas - gratidão pode ser aprendida, "pessoas más" podem ser perdoadas, você pode mudar por completo - e isto é equivalente a mudar o mundo inteiro.
O sol está se pondo agora? Depende de quem você é.
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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Honestidade pode ser algo absurdamente rude

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Mentir é uma parte normal de ser educado.
Leitores de longa data sabem que não aceito postagens de convidados aqui, a não ser de duas ou três exceções que são pessoas que convidei. Mas recebo solicitações o tempo todo e tento faze-las desistir afavelmente.
Mesmo que muitas delas estejam provavelmente jogando suas inscrições nos emails em massa, eu pondero que em cada caso possa haver uma pessoa sensível e esperançosa lendo minha resposta, e não quero machuca-la sendo frio. Então, quando rejeito sua oferta, eu adiciono uma mentira. Eu digo que receio.
"Receio que não aceite postagens de convidados no Raptitude."
"Eu não aceito postagens de convidados no Raptitude," soa muito insensível, eu acho, então algum hábito ridículo me leva a afirmar que este fato me assusta, de forma que o remetente saiba que eu acho minha própria política tão imperdoável e insensível quanto ele acha.
Nossos costumes de linguagem estã ocheios deste tipo de isoladores. A verdade, em muitos e muitos casos, é simplesmente bruta ou embaraçosa demais para ser dita como um fato, então adicionamos pequenas ficções.
"Olá, Sr. Smith, eu estava pensando se poderia emprestar sua caminhonete no Sábado à tarde."
Na minha cultura, é normal termos receio de até mesmo perguntar "Posso emprestar sua caminhonete?" Então você liga para o Sr. Smith não para perguntar algo a ele, mas para declarar à ele algo sobre o que você tem pensado. Presumivelmente, você acredita que ele é o tipo de pessoa que vai achar interessante saber sobre quais tópicos você tem ponderado ultimamente, então você ligou pra ele para colocá-lo a par. Talvez ele então terá a ideia de oferecer sua caminhonete para você, de forma que assim você não precisará mais ficar imaginando se é possível que você possa tomá-la emprestado no Sábado à tarde.
Em um restaurante, eu percebo que quando decido que quero o enrolado vegetariano, o que eu não digo ao garçom é "Eu quero o enrolado vegetariano." Eu não quero ser grosseiro. Ao invés disso, eu digo que eu gostaria do enrolado vegetariano, como se não estivéssemos falando do nosso desejo imediato, mas dos hipotéticos em algum universo periférico. Essencialmente eu estou dizendo "Se nos encontrássemos em uma situação onde estivéssemos declarando o que queremos aqui, eu lhe diria que quero o enrolado vegetariano - apenas para que você saiba, qual seja o valor que isso tenha. Faça com essa informação o que desejar."
Eu me lembro de ter tido que fazer voltas correndo ao redor de uma quadra de basquete, enquanto nosso treinador ficava nas arquibancadas gritando "Sorry ("desculpa", em inglês) é a palavra mais mal utilizada da língua inglesa! Não me diga que você lamenta! Você não está lamentando. Ainda não!"
Um colega tinha deixado uma bola fora da caixa, quando deveríamos colocar todas lá. Quando o treinador nos mostrou isso, o jogador pronunciou um irreverente "Oh, lamento." Os olhos do treinador se arregalaram e ele nos fez dar voltas enquanto palestrava sobre o mau uso da palavra "Sorry" na juventude de hoje.
Honestamente, eu nunca tinha pensado nisso. Eu sempre usei a palavra como um reflexo. Eu esqueci que era a mesma palavra usada por autores para descrever prédios agrículas em ruína, crianças de rua de Dickensian que inspiram piedade, e pessoas cujas vidas estão minadas de tristeza.
Este uso inadequado, no entanto, tem sua razão para existir - a maioria das crianças são incentivadas a dizer "Sorry" ("perdão", em inglês) por anos antes de aprenderem que a palavra tem um significado além do costumeiro pedido de desculpas. Elas aprendem o que a palavra realmente significa apenas mais tarde.
Pelo mesmo motivo, a perversão da palavra "Please" ("por favor", em inglês) é ainda mais completa. Primeiramente a aprendemos, quando crianças, como um tipo de senha arbitrária que nos permite (geralmente) ter o que queremos. Normalmente o que queremos nos é vedado no momento em que expressamos que queremos - como se houvesse algo fundamentalmente errado em dizer que você quer algo - até que dizemos "Please". Alguns pais até chamam ela de "a palavra mágica".
A maioria de nós aprende um segundo sentido para a palavra please quando começamos a ler livros. Um pode "please" ("dar prazer", em inglês) o outro, fazendo algo legal para ele. Alguns nunca se dão conta de que o sentido é o mesmo, e que o "please" que dizemos quando queremos algo é apenas uma forma reduzida de "... se você sentir prazer". Então essencialmente é costume não pedirmos algo a alguém sem insistir que não quer que atendam seu pedido a menos que isso lhes cause genuinamente algum prazer em fazê-lo. "Me passe o sal, mas somente se fazer isso será uma experiência prazerosa para você. Não pediria isso em qualquer por qualquer outra razão."
Eu reconheço que dizer "por favor" é apenas educado e sei que repetimos frases que sabemos que são apropriadas sem realmente pensar sobre o que as palavras nelas realmente significam.
Ainda que eu ache que exista muito espaço para franqueza adicional na forma como falamos com os outros, eu não sou favorável à honestidade radical. Não há nada pior do que alguém que não se importa com boas maneiras, alegando que estão apenas sendo "reais" e que "não são de joguinhos, cara". Eu prefiro que haja joguinhos, mesmo isso sendo estúpido. Isso mostra que você não quer ser indiferente com relação às reações que causa nos outros.
Porém me fascina o quão rude é dizer exatamente o que você quer. Dizemos em alto e bom som aos nossos convidados "Bem, melhor eu começar a limpeza...", ao invés de "Gostaria que todos fossem embora agora." Quando foi que ficamos tão embaraçados pelos nossos desejos reais?
Talvez estejamos tão presos à ideia de que somos civilizados e igualitários que não queremos nos dar conta que ainda não chegamos lá. Parece que estamos fingindo que nossa cultura atingiu um nível tal de elegância que os desejos dos outros são simplesmente tão importantes quanto os nossos próprios. Se não, por que é que regras de boa conduta pregam que você deve dizer que só quer o sal passado para você se quem o alcançar sentirá prazer em fazê-lo?
Desta perspectiva, isso parece um senso fortemente enraizado de negação. Nós não somos tão generosos quanto gostaríamos de ser, e é rude não fingir que somos.
Este é apenas o meu palpite. Se você cresceu com isso, é difícil concluir de forma clara de onde isso vem. O que você acha?
Diferentes sociedades têm costumes também totalmente diferentes. Eu adoraria ouvir dos leitores sobre locais onde este tipo de hábitos linguísticos são significantemente diferentes dos do Canadá ou EUA. Quão ridículos são os conjuntos de costumes do seu local quando você realmente pensa sobre eles?
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Foto de stevendepolo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O corpo está no comando e não deixará que você se esqueça disso por muito tempo

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Meu corpo me deu uma lição na noite passada. E eu mereci.
Eu vinha sentindo meu ritmo cainr nas últimas duas semanas, e não era sem motivo. Eu assumi mais compromissos pessoais e sociais e não dei conta deles de maneira satisfatória. Os exercícios diários pararam. Relaxei com minha alimentação. Bebi mais e dormi menos.
O corpo é maravilhoso. Ele conduz você por aí, mantém você em forma, manipula o mundo à sua volta. Ele faz seu trabalho. Ele gera afeição aos que o amam. Ele toca sua vida para você. Nos damos conta da sua generosidade geralmente apenas quando ela começa a diminuir.
O corpo também nos perdoa, talvez até demais. Ele aguentará um monte de porcarias antes de ficar bravo. Ele nos dá conselhos educados o tempo todo - a canseira das 15h, o mau humor, o intestino preguiçoso, as feridas estranhas, a boca seca.
Normalmente estamos muito mentalmente focados e o ruído de uma mente superativa pode nos distrair dos conselhos abruptos de nosso corpo. O corpo quer servir, dar prazer, deixá-lo ser você mesmo. Ele pode lhe permitir beber cinco ou seis doses, vez por outra, mas ele lhe punirá se você beber nove ou dez.
Se você não perceber os avisos subliminares, ele eventualmente lhe pegará pelo pescoço e se fará entender. Eu não mantive minha parte do acordo. Eu não cuidei do meu corpo e fui punido.
Então, pelos dois últimos dias, meu corpo me deu uma vingativa dor de garganta. Engolir era dolorido. Ele me deu dores de cabeça, náuseas e arrepios. Sofrer em posição fetal é sempre uma experiência humilhante. Não restam dúvidas sobre quem é que manda.
Foi difícil arranjar vontade para escrever, para limpar, para preparar o trabalho de amanhã. Estou escrevendo isso em meio a resquícios de náuseas e um pouco dopado pelo Neo-Citron. Tudo é colocado em modo de espera quando o corpo fica farto.
O corpo está bem ciente de sua própria posição executiva. Ele é o chefe, mas geralmente um chefe muito bonzinho. Ele oferece muita liberdade, para que você faça uso dela da forma que sentir prazer, mas ele está, em última instância, no comando sempre. Para lembrá-lo disso, ele derruba você em algum momento todos os dias, diretamente para o chão ou outra superfície horizontal. Ele deixa você embriagado e lento e você perde o interesse em praticamente qualquer outra coisa. Ele lhe tira a consciência. Ele revoga a liberdade que normalmente lhe concede durante o dia.
É fácil deixar o corpo no esquecimento, porque ele perdoa muito e é muito honesto. Normalmente sentimos que o chefe é a nossa mente. Mas a mente realmente recebe ordens do corpo. Quando o ritmo do corpo cai, os pensamentos deslizam para o modo auto-defesa: ressentimento, mentalidade vitimista, narcisismo. O corpo está suprimindo suas qualidades mentais mais altas, para voltar sua atenção ao que é mais urgente.
A mente então perde iluminação e sabedoria, e começa a se fixar no conforto. Muitos deles - mais café, outro filme no Netflix, um cigarro, uma bebida, uma rosquinha - não ajudam o corpo de forma alguma. Então ele aumenta a pressão até ter sua atenção e conseguir passar a mensagem clara: você está me impedindo de fazer meu trabalho.
O corpo é a base absoluta da pirâmide de Maslow. Se você não cuidar dele, ele destruirá tudo aos poucos até que você dê atenção à crise. Você não conseguirá ter foco no seu trabalho, você não terá sensibilidade em seus relacionamentos, seus sonhos entrarão em modo de espera e sua auto-confiança encolherá da mesma forma.
Estilos de vida variam muito. Algumas pessoas têm apenas deslises ocasionais. Elas comem e dormem consideravelmente bem, permanecem ativas e ficam doentes uma vez por ano, quando estão estressadas com o Natal. Outras pessoas comem mal a vida toda. Elas se acostumam a sentir-se preguiçosas ou doentes, então o corpo tem que ir mais além. Ele passa sua mensagem por meio de um ataque cardíaco, diabetes ou um derrame cerebral.
Quem quer que você seja, seu corpo está fazendo muito por você e, se você não paga seus impostos em dia, você será notificado.
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A foto de J thorn explica tudo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.