domingo, 13 de abril de 2014

Por que a maioria dos ativistas da internet não mudam mente alguma

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No Facebook, eu silenciosamente paro de seguir amigos que postam de forma raivosa sobre alguma causa, mesmo se estiverem certos. Eu não quero ser atacado pela "verdade", independente do quão verdadeira ela seja.
Eu entendo porquê eles fazem isso. Eu já fiz isso. A ignorância — sobre pesca excessiva, fábricas de filhotes, sexismo normalizado, sobre o que as vacinas podem e não podem fazer — pode ser genuinamente perigosa, e o desejo de se reduzir esta ignorância é compreensível.
Alguns conseguem fazer isso de forma cuidadosa e diplomática, e eu tenho aprendido muito destas pessoas.
Mas a maioria dos ativistas da internet deixam desprezo se infiltrar na mensagem. O ponto acaba sendo fazer com que os outros estejam errados, ao invés de tentar ajudá-los a estarem certos. Simplesmente visite virtualmente qualquer fórum de discussão ligado a alguma causa. É contraditório. É normal culpar as pessoas pela ignorância delas.
Ignorância, se realmente for isso, não é algo pelo que as pessoas possam ser tranquilamente responsabilizadas. Nós não escolhemos o que não entender, sobre o que não sermos ensinados, o que não nos darmos conta da importância.
A ignorância é cega para ela mesma. Enquanto você está tentando retificar a ignorância de alguém, é fácil esquecer que você também é ignorante, de formas que você não tem como saber.
Independente de quem você seja, tem de admitir que existem infinitas coisas sobre as quais você não sabe, e você não sabe que não sabe. Nenhum de nós está livre da ignorância. Então, em nossas tentativas de reduzir a ignorância, devemos nos aproximar dos outros como companheiros de aprendizagem, ao invés apenas apontar culpados.
A pior coisa que uma pessoa pode fazer para sua postura é entrega-la empacotada com um julgamento moral. Isto elimina efetivamente a liberdade da outra pessoa de concordar, e pode até mesmo criar um oponente comprometido com sua causa. Fazer isso com um monte de pessoas reduz completamente a receptividade do público para com a causa. Mesmo que ela seja verdadeira, quando você joga-la em alguém, ela vai rebater ao invés de aderir.
Aprender significa deixar uma crença atual ir embora, e uma pessoa precisa estar em um estado particularmente receptivo para fazer isso. Mesmo assim, a maioria das tentativas no ativismo de internet ignora abertamente as pessoas que quer (ostensivamente) educar.
Mudar mentes é um trabalho muito delicado. Deve-se tomar muito cuidado para não expressar desprezo pelas pessoas que (ainda) não vêem da sua maneira. Coloque as pessoas na defensiva e suas mentes estão fechadas até que se sintam seguras novamente. No momento em que uma discussão desencadeia uma reação defensiva, a possibilidade de aprender qualquer coisa se foi para aquela pessoa — apesar deste ponto de conflito ser onde a maioria do "ativismo" online inicia.
Esta delicadeza crucial é ameaçada pela nossa frustração com crenças que nós vemos como ignorantes. É difícil não ficar bravo com movimentos tão carente de informações como os anti-vacina, agora que estamos vendo surtos domésticos de sarampo e coqueluche.
Raiva é a resposta mais fácil, e também a mais destrutiva. O que você acha que deu início ao movimento anti-vacina? Provavelmente o mesmo tipo de raiva: "O que nos disseram estava errado e está colocando nossas crianças em risco. As pessoas precisam ficar espertas!"
Mesmo se um dos lados estiver factualmente correto — e este não é sempre o caso — quanto mais raiva for direcionada ao outro lado, menos daquelas pessoas se sentirá segura para mudar de ideia. Encurralar pessoas e contrariá-las apenas fortalece o lado oposto e a racionalização, além de alimentar a "ciência ruim", porque neste ponto, tudo se resume a troca de ruído emocional.
Este tipo de argumentação é uma abordagem quase que perfeitamente inútil para redução da ignorância. Ajudar as pessoas a entenderem algo (se isso é realmente o que o argumentador deseja) é o oposto de brigar.
O sentimento de se estar certo é algo que nos atrái extremamente. É bom estar certo e é péssimo quando estar errado. Mas a circunstância em que temos este sentimento ou não, tem pouco a ver com o quanto os fatos realmente nos apóiam, razão pela qual o vício nesta droga é tão perigoso.
Uma vez que você se prendeu ao sentimento de estar certo, ele se torna mais importante do que de fato estar certo. Todos nós já nos encontramos em meio a debates sem sentido com amigos: Crash foi um filme bom? O Bono está realmente ajudando alguém? Você pode ter percebido que, nestas discussões, não queremos que a outra pessoa exponha um bom argumento, mesmo que tal exposição pudesse nos deixar com uma postura mais inteligente do que antes. Ao invés disso, queremos que sejam feitos apontamentos estúpidos que façam com que o nosso pareça bom. Queremos muito mais que os outros estejam errados do que aprender alguma coisa.
Se você estivesse errado, gostaria que alguém lhe dissesse? Talvez, se isso fosse feito de forma privada e simpática. Fazer isso não é uma habilidade comum. Se você quer aprender como falar com as pessoas sobre qualquer coisa sem coloca-las na defensiva, o brilhante livro Nonviolent Communication (Comunicação Não-Violenta) de Marshall Rosenberg é sua Bíblia. (Na minha humilde opinião.)
É difícil ignorar a tentação de fazer alguém se sentir equivocado. Eu não sou muito bom nisso. No processo de escrita deste artigo, eu notei raiva emergindo das nas palavras várias vezes, e fiz o melhor que pude para mante-la fora do texto. Até porque meu objetivo aqui era "curar" um tipo particular de ignorância.
Este, no entanto, é sempre um terreno movediço, pois você tem que iniciar com uma crença bastante importante para si: "Eu tenho uma verdade que você não tem, e eu vou dá-la a você." Eu tentei manter pragmáticos meus objetivos aqui e não sucumbir ao impulso de atacar e ditar. Mas tenho certeza que isso ainda aparece sem que eu note.
Eu acho que estou certo, mas é possível que eu esteja sendo ignorante de forma tal que eu não entenda. E alguns podem dizer isso na seção de comentários, e novamente eu terei que monitorar minha tentação em oprimir visões contrárias com retórica. Se eu for habilidoso o suficiente, eu talvez consiga genuinamente considerar concordar com eles.
Até mesmo agora eu temo não conseguir agir assim quando tiver a chance. Sou muito bom em enrolação retórica, ou ao menos bom o suficiente para me satisfazer quando faço uso dela. O histórico de comentários deste blog é recheado de estrangulamentos verbais que eu apliquei, a maioria deles motivados pela forma como as pessoas demonstraram que não concordavam comigo. Espero que desta vez meus caluniadores sejam gentis e diplomáticos, porque esta rara forma de generosidade me dará a melhor chance possível de aprender alguma coisa.
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Foto de MKHMARKETING.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

9 epifanias alucinantes que viraram meu mundo de cabeça para baixo

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Com o passar dos anos, aprendi dezenas de pequenos truques e percepções para tornar a vida mais completa. Eles contribuíram para uma melhora significativa para facilitar e melhorar a qualidade da minha vida cotidiana. Mas as maiores descobertas vieram de uma série de percepções que sacudiram meu mundo completamente e redefiniram para sempre minha realidade.
O mundo agora parece ser completamente diferente daquele no qual eu vivi há aproximadamente dez anos atrás, quando comecei a pesquisar sobre a mecânica da qualidade de vida. O que de fato mudou não foi o mundo (e suas pessoas), mas como eu passei a vê-lo.
Talvez você já teve algumas destas percepções. Ou talvez esteja a ponto de tê-las.

1. Você não é sua mente.

A primeira vez que ouvi alguém dizer isso, não gostei nem um pouco. O que mais eu poderia ser? Eu tinha certeza que o tagarela mental na minha cabeça era o "eu" principal, para o qual todas as experiências da minha vida aconteciam.
Hoje eu vejo de forma bem clara que a vida não é nada além de passagens por experiências e que meus pensamentos são apenas mais uma categoria de coisas que eu experimento. Pensamentos não são mais fundamentais do que cheiros, visões e sons. Como qualquer experiência, eles surgem em minha consciência, eles têm uma certa textura e então eles cedem espaço a alguma outra coisa.
Se você é capaz de observar seus pensamentos da mesma maneira que observa outros objetos, quem está observando? Não responda rápido demais. Esta questão e suas respostas inexprimíveis são o cerne de todas as grandes religiões e tradições espirituais.

2. A vida se desdobra apenas em momentos.

É claro! Uma vez eu chamei isto de a coisa mais importante que eu já aprendi. Ninguém jamais experimentou qualquer coisa que não fosse parte do desdobrar de um momento único. Isto significa que o único desafio da vida é lidar com o momento único que você está tendo neste exato momento. Antes de me dar conta disso, eu ficava constantemente tentando resolver minha vida inteira — lutando com problemas que na verdade não estavam acontecendo. Qualquer um pode ter vontade de lidar com um momento único presente, desde que esteja verdadeiramente ciente que este é seu único ponto de contato com a vida e, portanto, não há nada além disso que possa ser feito e que seja realmente útil. Ninguém pode lidar com o passado ou com o futuro, porque ambos existem apenas como pensamentos no presente. Mas podemos morrer tentando.

3. A qualidade de vida é determinada pela forma como você lida com seus momentos, não por quais momentos acontecem e quais não.

Eu atualmente considero esta verdade como sendo o "Happiness 101", mas é incrível o quão tentador ainda é ficar no controle de todas as circunstâncias, para tentar assegurar-se de que eu consigo exatamente o que eu quero. Encontrar uma situação indesejada e lidar com ela voluntariamente é a marca de uma pessoa sábia e feliz. Imagine que você se depara com um pneu furado, ficando doente num momento inoportuno, batendo em alguma coisa e quebrando-a — e não sofra nada com isso. Não há nada a temer se você combinar com você mesmo que vai lidar voluntariamente com a adversidade, não importa quando ela surgir. É assim que você torna sua vida melhor. O método típico e lento consiste em torcer para que você eventualmente acumule forças através de suas circunstâncias, de forma que você consiga ter o que quer mais frequentemente. Há uma frase excelente numa música do Modest Mouse que celebra este efeito colateral da sabedoria: Conforme a vida fica mais longa, sentimentos terríveis ficam mais suaves.

4. A maioria da nossa vida é imaginária.

Os seres humanos têm um hábito compulsivo de pensar tão sutil que nos faz perder de vista o fato de que estamos praticamente o tempo todo pensando. A maioria das coisas com as quais interagimos não se trata do mundo propriamente dito, mas de nossas crenças, expectativas e interesses pessoais nele. Temos uma dificuldade enorme em observar algo sem confundir esse algo com os pensamentos que temos a respeito dele, então a maioria das coisas que experimentamos na vida é imaginária. Como disse Mark Twain: "Eu passei por coisas terríveis em minha vida, algumas das quais realmente aconteceram." O melhor remédio que eu encontrei? Cultivar a atenção.

5. Seres humanos evoluíram para sofrer e nós somos os melhores em sofrimento do que em qualquer outra coisa.

Caramba. Não parece uma descoberta muito libertadora. Eu costumava acreditar que, se eu estava sofrendo, significava que havia algo errado comigo — que eu estava vivendo "errado". O sofrimento é completamente humano e completamente normal, e há uma razão muito boa para sua existência. Aquele zumbido persistente de "isso não está muito bom, preciso melhorar", aliado a flashes ocasionais e intensos de horror e adrenalina são o que manteve os seres humanos vivos por milhões de anos. Esta ânsia de mudar ou fugir do momento presente controla quase todo nosso comportamento. É um mecanismo de sobrevivência simples e implacável que funciona absolutamente bem para nos manter vivos, mas tem um efeito colateral péssimo: os seres humanos sofrem muito por natureza. Isto, para mim, redefiniu cada um dos problemas da vida como um tentáculo da condição humana. Tão triste quanto possa parecer, esta percepção é libertadora porque significa: 1) que sofrer não significa necessariamente que minha vida está dando errado, 2) que a bola está sempre na minha quadra, então meu grau de sofrimento está, em última análise, em minhas mãos, e 3) que todos os problemas têm a mesma causa e a mesma solução.

6. A emoção existe para tirar nosso equilíbrio.

Esta descoberta foi um 180 completo do meu velho conceito de emoções. Eu costumava pensar que minhas emoções eram indicadores confiáveis sobre o estado da minha vida — indicando se eu estava no caminho certo ou não. Seus estados emocionais passageiros não podem ser tidos como confiáveis para medir sua auto-estima ou sua situação na vida, mas são ótimos para lhe fazer ver as coisas sem as quais você não vive. O problema é que as emoções nos desequilibram, mas ao mesmo tempo nos tornam mais fortes. Outro mecanismo de sobrevivência com efeitos colaterais desagradáveis.

7. Todas as pessoas operam a partir das mesmas duas motivações: satisfazer seus desejos e fugir de seus sofrimentos.

Aprender isso me permitiu finalmente ver sentido em como as pessoas conseguem machucar as outras tanto. A melhor explicação que eu tinha antes disso era que algumas pessoas eram simplesmente más. Que desculpa. Não importa o tipo de comportamento que as outras pessoas demonstrem, elas estão agindo da forma mais eficiente que são capazes (naquele momento) para satisfazerem um desejo ou aliviar seu sofrimento. Estes são motivos que todos somos capazes de compreender; variamos apenas em método, e os métodos que cada um de nós tem disponível dependem de nossa educação e de nossas experiências de vida, bem como de nosso estado de consciência. Alguns métodos são hábeis e úteis para os outros. Outros são débeis e destrutivos e quase todo comportamento destrutivo é inconsciente. Então não existe bem e mal, mas apenas inteligentes e estúpidos (ou sábios e tolos). Compreender isso chacoalhou completamente minhas antigas noções de moralidade e justiça.

8. Crenças não são nada do que devamos nos orgulhar.

Acreditar em algo não é uma realização. Eu cresci pensando que crenças eram algo do que devíamos nos orgulhar, mas elas não passam de opiniões que alguém se recusa a reconsiderar. Crenças são fáceis. Quanto mais fortes são suas crenças, menos aberto ao crescimento e à sabedoria você está, pois "força da crença" é apenas a intensidade com a qual você resiste a questionar a si próprio. Tão logo você passa a ter orgulho de uma crença, tão logo você pense que ela acrescenta algo a quem você é, você tornou a crença parte do seu ego. Preste atenção a qualquer conversa "teimosa", conservadora ou liberal, sobre suas mais profundas crenças e você estará dando atenção a alguém que nunca vai ouvir o que você diz sobre qualquer assunto que tenha importância para esta pessoa — a não ser que você acredite na mesma coisa. É gratificante falar com propriedade. É gratificante sentir concordância e este enaltecimento é o que os teimosos procuram. Onde quer que exista uma crença, existe uma porta fechada. Assuma as crenças que resistem à sua análise mais honesta e humilde e nunca tenha medo de perdê-las.

9. Objetividade é subjetiva.

A vida é uma experiência subjetiva e da qual não podemos escapar. Toda experiência que eu tenho surge a partir do meu próprio ponto de vista pessoal e não compartilhável. Não há como outra pessoa avaliar minha experiência direta. Não há colaboração real. Isto tem algumas implicações de grande vulta na forma como eu vivo minha vida. A mais imediata é que eu percebo que devo confiar na minha experiência pessoal, pois ninguém mais tem este ângulo e eu tenho apenas este ângulo. Outra é que eu sinto mais admiração pelo mundo que me cerca, ciente de que qualquer compreensão "objetiva" que eu afirmo ter sobre o mundo é construída inteiramente e desde o princípio por mim mesmo. O que eu realmente construo depende dos livros que li, das pessoas que conheci e das experiências que eu tive. Isto significa que eu nunca verei o mundo de forma semelhante a qualquer outra pessoa, o que significa que eu nunca viverei exatamente no mesmo mundo que outra pessoa — e portanto eu não devo permitir que observadores externos sejam a autoridade sobre quem eu sou ou sobre como a vida realmente é para mim. Subjetividade é experiência primária — é vida real, e objetividade é algo que cada um de nós constrói com base nessa vida, dentro de nossas mentes, de forma privada, com o objetivo de explicar o todo. Esta verdade tem implicações de fazer a terra tremer, em especial sobre o sentido da religião e da ciência nas vidas daqueles que a assumem.
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O que você descobriu que fez seu mundo virar de cabeça para baixo?
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Foto de h.koppdelaney
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O sol está sempre se pondo

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Durante o verão, eu tento orientar meu dia de tal forma que, ao pôr-do-sol, eu esteja fora, em um lugar onde não haja nada bloqueando a visão. Pores-do-sol sempre valem a pena.
Eles também são fugazes. Ao longo de qualquer experiência encantadora de pôr-do-sol, sempre há um momento no qual você se dá conta que o seu brilho chegou ao auge e começa a desaparecer. Algumas vezes eu chego na ponte ou no fim da Westbound streed e percebo imediatamente que perdi esse auge.
Quando isso acontece, ao menos eu posso demonstrar estar feliz pelos outros espectadores um pouco distantes a oeste de mim, para os quais o pôr-do-sol apenas começou a ficar brilhante. Este fato é um maravilhoso presente para os seres humanos - o sol está sempre se pondo.
Milhares de milhas além deles, no mesmo momento, madrugadores de certas ilhas do Pacífico estão perstes a vê-lo nascer. O sol está sempre se pondo e sempre nascendo, sempre lá no alto e sempre fora do campo de visão. Objetivamente, isto é tão verdadeiro quanto qualquer outra coisa que saibamos. Ele está sempre se pondo, neste exato momento.
Temos que reconhecer que esta verdade é relativa ao observador. Se não houvesse ninguém observando o pôr-do-sol, não haveria pôr-do-sol.
Eu sonho com frequência com os selvagens pores-do-sol que devam estar acontecendo em um zilhão de diferentes céus lá no espaço, na superfície de outros planetas. Existem trilhões de estrelas, com diferentes cores e intensidades, e cada uma pode ser vista a partir de superfícies distintas e a diferentes distâncias, através de diferentes atmosferas, ao longo de inimagináveis paisagens exóticas.
Mas provavelmente não haja ninguém lá para ver a maioria deles, e portanto eles estão realmente acontecendo apenas na minha imaginação. Um pôr-do-sol, enfim, é uma experiência. Portanto você precisa de um experimentador, no local certo, para que ele exista. Você ainda poderia dizer que existem bilhões de pores-do-sol potencialmente experimentáveis por aí, mas eles não são reais até que alguém esteja parado lá naquele mundo estranho, assistindo um ardente pôr-do-sol duplo, azul e verde, lentamente se dissolvendo por sobre algumas montanhas.
A ciência é de longe a instituição mais útil que temos para dar sentido às nossas experiências, e para prever o que poderemos experimentar futuramente. A forma como fazem isso é a seguinte: um monte de pessoas diferentes observa o mesmo fenômeno a partir de diferentes ângulos, em momentos diferentes, e o discutem e definem um conceito sobre o que é este fenômeno quando nenhuma pessoa em particular o esteja assistindo. Eles reunem todas estas conclusões e colocam em livros, os quais têm a função de descrever como as coisas realmente são, independentemente da forma como você as possa perceber pessoalmente.
Para nós, ou para qualquer um, o universo é realmente composto apenas de experiências, ou ao menos ele não tem sentido concebível algum, exceto pela nossa experiência a seu respeito. E isso significa, portanto, que o que o universo realmente é depende de quem está lá para ter estas experiências. Tudo a respeito do universo sobre o que afirmamos ter conhecimento deve estar baseado em experiências diretas. Nenhuma quantidade de dados ou teoria científica sobre pores-do-sol contém a verdade sobre o que eles são. Um pôr-do-sol só pode ser realmente conhecido como uma experiência fugaz e subjetiva.
Este é o único motivo pelo qual nós temos a ciência - para encontrar padrões por trás de nossas experiências. Estes padrões são úteis para a compreensão, pois eles podem nos ajudar a saber, por exemplo, se um evento próximo está mais propenso a criar uma experiência subjetiva de se ficar molhado da chuva ou uma experiência subjetiva de se ficar queimado do sol. Nós nos importamos com estas coisas, porque elas são experiências, e não há nada mais com o que possamos nos importar, pois isso é tudo que a vida é.
Eu penso que estejamos correndo o risco de nos esquecermos que o conhecimento científico está aí para nos ajudar a compreender os prováveis motivos para as experiências que vivemos e, por consequência, para prever e explicar outras experiências, ao invés de nos dizer como a experiência realmente é. O processo científico tem, seja isso bom ou ruim, ajudado a criar uma imagem mental do universo (a qual deve ser no mínimo levemente diferente para cada um de nós) que explica os padrões por trás de todos os tipos de experiências.
No entanto a consequência disso é que ele sempre funciona da mesma forma, não importa se você está olhando para ele daqui ou dali ou nem mesmo esteja olhando. Isso sugere que verdades sejam absolutas, em regra. Nós construímos essa coisa que chamamos de "objetividade" a partir da coleta e organização de um grande monte de experiências subjetivas de diferentes pessoas, e frequentemente imaginamos que esta objetividade estava lá antes, e subjetividade é como chamamos isso quando uma determinada pessoa vislumbra essa objetividade como verdadeira. Mas objetividade é uma projeção - um modelo mental complexo e mutante que foi construído somente a partir da coleta destes vislumbres subjetivos, e fora deles, nós nem mesmo sabemos o que é isso que estamos vislumbrando.
Nós sabemos agora que esta verdade é frequentemente (ou talvez sempre) relativa. Einstein nos ajudou a começar a perceber que não devemos nos referir às verdades aparentes do universo como absolutas (e desde então as coisas se tornaram ainda mais estranhas). Mas nós ainda insistimos no hábito de imaginar que as assim chamadas verdades "objetivas" estavam lá primeiro, antes de sequer termos testemunhado qualquer uma delas - que o sol de fato não se põe; ele está lá queimando abertamente, não importa quem você seja ou onde esteja. Nós nos curvamos diante deste modelo como uma verdade real, e julgamos que nossa experiência pessoal (o pôr-do-sol propriamente dito) seja algo menos verdadeiro - como se o sol não se pusesse realmente, que isto é apenas uma ilusão, ou ao menos uma visão obscurecida do que está realmente acontecendo.
Eu acho que isso está ao contrário. O pôr-do-sol é real. Este é o fato primário, como são todas as experiências. Nós prestamos extremamente pouca atenção na vida como ela se desdobra em tempo real ao nosso redor e muita atenção nos nossos pensamentos e crenças sobre o que ela realmente é e o que realmente significa. O que é mais importante: quanto dinheiro você tem ou o quão ricamente você se experimenta ser? Nós todos sabemos que é possível uma pessoa ter muito mais riqueza em papel do que outra, no entanto sentindo-se pobre e restrita, enquanto a outra percebe abundância. Estes são estados subjetivos, no entanto eles importam mais na vida real do que o resultado objetivo de fatos físicos sobre tais respectivas situações.
O estado do mundo, por exemplo, é uma verdade relativa. É em grande parte relativa à quantidade de notícias que você assiste. Se você é um viciado em CNN, você vive num mundo mais ansioso e perigoso do que eu. Você pode argumentar o dia todo que trata-se do mesmo mundo, mas tudo o que importa é o mundo que você experimenta, e não como o mundo deveria ser fora da sua experiência.
Então amplie, viva daqui. Não permita que outros lhe digam como é o mundo, pois eles vivem em outro mundo. O que importa é como as coisas parecem ser, a partir da sua perspectiva. A sua qualidade de vida se encaixa na sua perspectiva, não no estado teórico do mundo, ou avaliações "objetivas" de sua situação de vida. Eu apostaria que a maioria ou todos os maiores avanços da sua vida resultaram em uma mudança de perspectiva, ao invés de uma mudança em algo externo. Mudanças de perspectiva devem ser cultivadas - gratidão pode ser aprendida, "pessoas más" podem ser perdoadas, você pode mudar por completo - e isto é equivalente a mudar o mundo inteiro.
O sol está se pondo agora? Depende de quem você é.
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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Honestidade pode ser algo absurdamente rude

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Mentir é uma parte normal de ser educado.
Leitores de longa data sabem que não aceito postagens de convidados aqui, a não ser de duas ou três exceções que são pessoas que convidei. Mas recebo solicitações o tempo todo e tento faze-las desistir afavelmente.
Mesmo que muitas delas estejam provavelmente jogando suas inscrições nos emails em massa, eu pondero que em cada caso possa haver uma pessoa sensível e esperançosa lendo minha resposta, e não quero machuca-la sendo frio. Então, quando rejeito sua oferta, eu adiciono uma mentira. Eu digo que receio.
"Receio que não aceite postagens de convidados no Raptitude."
"Eu não aceito postagens de convidados no Raptitude," soa muito insensível, eu acho, então algum hábito ridículo me leva a afirmar que este fato me assusta, de forma que o remetente saiba que eu acho minha própria política tão imperdoável e insensível quanto ele acha.
Nossos costumes de linguagem estã ocheios deste tipo de isoladores. A verdade, em muitos e muitos casos, é simplesmente bruta ou embaraçosa demais para ser dita como um fato, então adicionamos pequenas ficções.
"Olá, Sr. Smith, eu estava pensando se poderia emprestar sua caminhonete no Sábado à tarde."
Na minha cultura, é normal termos receio de até mesmo perguntar "Posso emprestar sua caminhonete?" Então você liga para o Sr. Smith não para perguntar algo a ele, mas para declarar à ele algo sobre o que você tem pensado. Presumivelmente, você acredita que ele é o tipo de pessoa que vai achar interessante saber sobre quais tópicos você tem ponderado ultimamente, então você ligou pra ele para colocá-lo a par. Talvez ele então terá a ideia de oferecer sua caminhonete para você, de forma que assim você não precisará mais ficar imaginando se é possível que você possa tomá-la emprestado no Sábado à tarde.
Em um restaurante, eu percebo que quando decido que quero o enrolado vegetariano, o que eu não digo ao garçom é "Eu quero o enrolado vegetariano." Eu não quero ser grosseiro. Ao invés disso, eu digo que eu gostaria do enrolado vegetariano, como se não estivéssemos falando do nosso desejo imediato, mas dos hipotéticos em algum universo periférico. Essencialmente eu estou dizendo "Se nos encontrássemos em uma situação onde estivéssemos declarando o que queremos aqui, eu lhe diria que quero o enrolado vegetariano - apenas para que você saiba, qual seja o valor que isso tenha. Faça com essa informação o que desejar."
Eu me lembro de ter tido que fazer voltas correndo ao redor de uma quadra de basquete, enquanto nosso treinador ficava nas arquibancadas gritando "Sorry ("desculpa", em inglês) é a palavra mais mal utilizada da língua inglesa! Não me diga que você lamenta! Você não está lamentando. Ainda não!"
Um colega tinha deixado uma bola fora da caixa, quando deveríamos colocar todas lá. Quando o treinador nos mostrou isso, o jogador pronunciou um irreverente "Oh, lamento." Os olhos do treinador se arregalaram e ele nos fez dar voltas enquanto palestrava sobre o mau uso da palavra "Sorry" na juventude de hoje.
Honestamente, eu nunca tinha pensado nisso. Eu sempre usei a palavra como um reflexo. Eu esqueci que era a mesma palavra usada por autores para descrever prédios agrículas em ruína, crianças de rua de Dickensian que inspiram piedade, e pessoas cujas vidas estão minadas de tristeza.
Este uso inadequado, no entanto, tem sua razão para existir - a maioria das crianças são incentivadas a dizer "Sorry" ("perdão", em inglês) por anos antes de aprenderem que a palavra tem um significado além do costumeiro pedido de desculpas. Elas aprendem o que a palavra realmente significa apenas mais tarde.
Pelo mesmo motivo, a perversão da palavra "Please" ("por favor", em inglês) é ainda mais completa. Primeiramente a aprendemos, quando crianças, como um tipo de senha arbitrária que nos permite (geralmente) ter o que queremos. Normalmente o que queremos nos é vedado no momento em que expressamos que queremos - como se houvesse algo fundamentalmente errado em dizer que você quer algo - até que dizemos "Please". Alguns pais até chamam ela de "a palavra mágica".
A maioria de nós aprende um segundo sentido para a palavra please quando começamos a ler livros. Um pode "please" ("dar prazer", em inglês) o outro, fazendo algo legal para ele. Alguns nunca se dão conta de que o sentido é o mesmo, e que o "please" que dizemos quando queremos algo é apenas uma forma reduzida de "... se você sentir prazer". Então essencialmente é costume não pedirmos algo a alguém sem insistir que não quer que atendam seu pedido a menos que isso lhes cause genuinamente algum prazer em fazê-lo. "Me passe o sal, mas somente se fazer isso será uma experiência prazerosa para você. Não pediria isso em qualquer por qualquer outra razão."
Eu reconheço que dizer "por favor" é apenas educado e sei que repetimos frases que sabemos que são apropriadas sem realmente pensar sobre o que as palavras nelas realmente significam.
Ainda que eu ache que exista muito espaço para franqueza adicional na forma como falamos com os outros, eu não sou favorável à honestidade radical. Não há nada pior do que alguém que não se importa com boas maneiras, alegando que estão apenas sendo "reais" e que "não são de joguinhos, cara". Eu prefiro que haja joguinhos, mesmo isso sendo estúpido. Isso mostra que você não quer ser indiferente com relação às reações que causa nos outros.
Porém me fascina o quão rude é dizer exatamente o que você quer. Dizemos em alto e bom som aos nossos convidados "Bem, melhor eu começar a limpeza...", ao invés de "Gostaria que todos fossem embora agora." Quando foi que ficamos tão embaraçados pelos nossos desejos reais?
Talvez estejamos tão presos à ideia de que somos civilizados e igualitários que não queremos nos dar conta que ainda não chegamos lá. Parece que estamos fingindo que nossa cultura atingiu um nível tal de elegância que os desejos dos outros são simplesmente tão importantes quanto os nossos próprios. Se não, por que é que regras de boa conduta pregam que você deve dizer que só quer o sal passado para você se quem o alcançar sentirá prazer em fazê-lo?
Desta perspectiva, isso parece um senso fortemente enraizado de negação. Nós não somos tão generosos quanto gostaríamos de ser, e é rude não fingir que somos.
Este é apenas o meu palpite. Se você cresceu com isso, é difícil concluir de forma clara de onde isso vem. O que você acha?
Diferentes sociedades têm costumes também totalmente diferentes. Eu adoraria ouvir dos leitores sobre locais onde este tipo de hábitos linguísticos são significantemente diferentes dos do Canadá ou EUA. Quão ridículos são os conjuntos de costumes do seu local quando você realmente pensa sobre eles?
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Foto de stevendepolo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O corpo está no comando e não deixará que você se esqueça disso por muito tempo

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Meu corpo me deu uma lição na noite passada. E eu mereci.
Eu vinha sentindo meu ritmo cainr nas últimas duas semanas, e não era sem motivo. Eu assumi mais compromissos pessoais e sociais e não dei conta deles de maneira satisfatória. Os exercícios diários pararam. Relaxei com minha alimentação. Bebi mais e dormi menos.
O corpo é maravilhoso. Ele conduz você por aí, mantém você em forma, manipula o mundo à sua volta. Ele faz seu trabalho. Ele gera afeição aos que o amam. Ele toca sua vida para você. Nos damos conta da sua generosidade geralmente apenas quando ela começa a diminuir.
O corpo também nos perdoa, talvez até demais. Ele aguentará um monte de porcarias antes de ficar bravo. Ele nos dá conselhos educados o tempo todo - a canseira das 15h, o mau humor, o intestino preguiçoso, as feridas estranhas, a boca seca.
Normalmente estamos muito mentalmente focados e o ruído de uma mente superativa pode nos distrair dos conselhos abruptos de nosso corpo. O corpo quer servir, dar prazer, deixá-lo ser você mesmo. Ele pode lhe permitir beber cinco ou seis doses, vez por outra, mas ele lhe punirá se você beber nove ou dez.
Se você não perceber os avisos subliminares, ele eventualmente lhe pegará pelo pescoço e se fará entender. Eu não mantive minha parte do acordo. Eu não cuidei do meu corpo e fui punido.
Então, pelos dois últimos dias, meu corpo me deu uma vingativa dor de garganta. Engolir era dolorido. Ele me deu dores de cabeça, náuseas e arrepios. Sofrer em posição fetal é sempre uma experiência humilhante. Não restam dúvidas sobre quem é que manda.
Foi difícil arranjar vontade para escrever, para limpar, para preparar o trabalho de amanhã. Estou escrevendo isso em meio a resquícios de náuseas e um pouco dopado pelo Neo-Citron. Tudo é colocado em modo de espera quando o corpo fica farto.
O corpo está bem ciente de sua própria posição executiva. Ele é o chefe, mas geralmente um chefe muito bonzinho. Ele oferece muita liberdade, para que você faça uso dela da forma que sentir prazer, mas ele está, em última instância, no comando sempre. Para lembrá-lo disso, ele derruba você em algum momento todos os dias, diretamente para o chão ou outra superfície horizontal. Ele deixa você embriagado e lento e você perde o interesse em praticamente qualquer outra coisa. Ele lhe tira a consciência. Ele revoga a liberdade que normalmente lhe concede durante o dia.
É fácil deixar o corpo no esquecimento, porque ele perdoa muito e é muito honesto. Normalmente sentimos que o chefe é a nossa mente. Mas a mente realmente recebe ordens do corpo. Quando o ritmo do corpo cai, os pensamentos deslizam para o modo auto-defesa: ressentimento, mentalidade vitimista, narcisismo. O corpo está suprimindo suas qualidades mentais mais altas, para voltar sua atenção ao que é mais urgente.
A mente então perde iluminação e sabedoria, e começa a se fixar no conforto. Muitos deles - mais café, outro filme no Netflix, um cigarro, uma bebida, uma rosquinha - não ajudam o corpo de forma alguma. Então ele aumenta a pressão até ter sua atenção e conseguir passar a mensagem clara: você está me impedindo de fazer meu trabalho.
O corpo é a base absoluta da pirâmide de Maslow. Se você não cuidar dele, ele destruirá tudo aos poucos até que você dê atenção à crise. Você não conseguirá ter foco no seu trabalho, você não terá sensibilidade em seus relacionamentos, seus sonhos entrarão em modo de espera e sua auto-confiança encolherá da mesma forma.
Estilos de vida variam muito. Algumas pessoas têm apenas deslises ocasionais. Elas comem e dormem consideravelmente bem, permanecem ativas e ficam doentes uma vez por ano, quando estão estressadas com o Natal. Outras pessoas comem mal a vida toda. Elas se acostumam a sentir-se preguiçosas ou doentes, então o corpo tem que ir mais além. Ele passa sua mensagem por meio de um ataque cardíaco, diabetes ou um derrame cerebral.
Quem quer que você seja, seu corpo está fazendo muito por você e, se você não paga seus impostos em dia, você será notificado.
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A foto de J thorn explica tudo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O que os outros deixam para você

Imagem para O que os outros deixam para você
Há outros. Mais do que você pode compreender. Eles estão em toda parte e você conhecerá alguns deles.
Algumas destas outras pessoas se estabelecerão naturalmente como uma figura presente em sua vida, e mudarão a forma como você vê a vida. Isto se chama relacionamento. Se as pessoas permanecem por meses ou anos, sua relação com elas pode começar a parecer permanente.
Não é. Relacionamentos são condições, não coisas. Todos eles têm que terminar em algum ponto. Mas eles deixarão alguma coisa para trás para você.
Existem diferentes tipos, diferentes estilos de conexão entre você e Os Outros: educados, difíceis, românticos, platônicos, confusos. Nós tendemos a enquadrá-los em tipos diferentes - amizades, namoros, casamentos, parceiros de negócios - mas eles são todos fundamentalmente a mesma coisa. Duas pessoas encontram algo em comum, experimentam os pensamentos e ideias umas das outras, absorvem os valores umas das outras e aprendem a partir das histórias um do outro. Personalidades são absorvidas pelas outras pessoas quando estas pessoas ficam próximas o suficiente.
Isto acontece o tempo todo, e sempre é temporário. A afinidade termina e as partes divergem e se afastam. Pode ser depois de 72 horas viajando juntos (em inglês), ou depois de um estágio de verão trabalhando juntos, ou após 55 anos de casamento. Se nada mais terminar com o relacionamento, a morte o fará.
Isto significa que a vida é essencialmente uma viagem solitária. No entanto, você terá esta interminável multidão de visitantes, o que é bom. Personagens que você não imaginava aparecerão, ficarão por um minuto ou talvez alguns meses ou talvez muitos anos, e então deixarão você seguir viagem.
Como regra geral, dê boas vindas aos visitantes. O propósito deles é ajudar o viajante solitário a descobrir como desfrutar do mundo.
A maioria das pessoas vai entrar e sair da sua vida sem que você realmente perceba. Algumas, no entanto, terão grande impacto. Alguns visitantes serão decididamente especiais. Você saberá.
A experiência mais valiosa que uma pessoa pode ter é algo em comum com este tipo de pessoa. A característica que define uma dessas pessoas é que elas tornam impossível que você continue sendo a mesma pessoa quando elas partem.
Cada uma dessas pessoas, no momento em que seus caminhso divergem, terá modificado você de uma forma que é evidente para os outros que o conhecem.
Você provavelmente não entenderá bem o que está acontecendo no momento. No entanto, sentirá algo. A sensação de janelas se abrindo.
Como quer que este encontro se desenrole, sejam quais forem as experiências que o compõem, extasiantes ou detestáveis - alguns meses ou anos de estrada e você está diferente. Você está melhor. Algo que foi difícil agora é fácil, algo que foi assustador é agora familiar, algo sobre o que você se considerava cético, você agora ama.
Você ficará com algumas crenças que não tinha antes. Você valorizará certas coisas mais do que valorizava, e outras coisas, menos.
Talvez você nunca tenha pensado nisso, mas você já passou por isso muitas vezes até hoje. Isto acontecerá repetidamente. Você não tem ideia de quem está a caminho de conhecê-lo. Eles também não fazem ideia.
A qualquer momento, a qualquer tempo, a qualquer dia da sua existência, você pode olhar para sua vida toda como uma vasta coleção de experiências, e reconhecer que elas todas resumem quem você se tornou hoje. Quem você se tornou depende - a um grau que você jamais apreciaria - de com quem você se relacionou enquanto esteve por aí fazendo suas coisas. Você pode ter sido muitas pessoas diferentes.
Todos os relacionamentos são temporários. Eles mudam de forma e textura conforme o tempo passa, e eles eventualmente se vão.
Se foi um relacionamento especial - com um amor, um professor importante, um pai ou mãe - sua ausência pode ser um grande fardo. Quase tangível. Você pode sentir a presença de sua ausência. O Outro se foi. Uma escrivaninha vazia, um travesseiro não utilizado, uma porta aberta sem ninguém ali.
Mas você ainda está lá, e você está melhor do que era.
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Foto de flabber degasky.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A pessoa que você era continua lhe dizendo o que fazer

Post image for The person you used to be still tells you what to do
Assim que eu e meus amigos atingimos a idade exigida para frequentar bares, vi que nos dividimos em duas facções. Haviam os que iam a clubes para dançar e os que iam a um bar para sentar e beber e conversar em voz alta.
Eu odiava os clubes. A música era terrível, barulho de batida eletrônica. Acho que fiz três tentativas de me divertir desta forma, e então eu cometi um erro de longo prazo em termos de julgamento. Eu tirei sobre mim mesmo uma conclusão que eu não tinha qualificação para tirar: dançar não é para mim.
Como se vê, havia necessidade de muito mais investigação. Mas eu nem me preocupei. Eu achei que sabia. Eu suportei três noites maçantes bebendo chopp sob luzes azuis enlouquecidas, fingindo que estava feliz por ter saído de casa, mas silenciosamente me perguntando como alguém podia se permitir balançar seu corpo em sincronia com remixes acelerados de Rick Martin. Então, sem ao menos perceber, eu decidi que não sou do tipo que dança. Eu amo música, mas não o tipo de música que as pessoas dançam.
Uma generalização maluca como esta, se diz respeito a quem você é e sobre o que é ou não o seu tipo, pode afetá-lo por um longo período da sua vida. Pelos doze anos seguintes, todos os convites para sair para dançar foram negados por padrão.
Isto é tudo que você precisa para manter algo fora de sua vida: um único instante em que você diz "Isto não é pra mim." O problema é que não pensamos muito sobre o que exatamente constitui "isto" e portanto estamos sujeitos a descartar, apenas por associação, uma vasta gama de experiências que talvez sejam nosso tipo. Perdemos controle sobre nossos símbolos (em inglês).
Mais cedo, este ano, se quebrou - durante uma viagem, o que parece ser sempre o que eu estou fazendo nos momentos em que me dou conta de um conceito errôneo sobre mim mesmo que já durava muito tempo e acaba de morrer. Eu me encontrava sentado de pernas cruzadas no chão da casa de um amigo, falando sobre música com uma mulher que acabara de conhecer. Gostei dela de imediato e toda vez que ela mencionava algo que eu também gostava, me sentia mais próximo dela.
Quando ela disse que gostava de música dance eletrônica, senti uma pontada de decepção - um pouco menos de conexão, momentaneamente. De alguma forma, aproximadamente meia vida depois de eu ter passado os olhos pela primeira vez por uma sala cheia de pessoas, no final do anos noventa, me dei conta de que parte do que eu havia visto e odiado era algo que a atraía.
E isto é porque eu já sabia que aquilo não era pra mim. Eu sei disso há anos. Eu não danço. Eu acho que disse isso.
No entanto eu já sabia que o gosto dela era excelente, então eu explorei a música sobre a qual ela estava falando, e é claro que não tinha nada a ver como o choque eletro-pop que eu odiava quando adolescente. Era maravilhoso. Despretencioso e refinado.
E hoje eu danço. Eu amo dançar. Eu devia ter feito isso o tempo todo.
Até aquele dia - e felizmente, nunca depois - a imagem que eu tinha em minha mente sobre sair para dançar era a mesma que eu rejeitei doze anos antes: adolescentes bêbados dançando hinos pop insípidos em um terrível clube suburbano.
O que me surpreendeu foi o quão relevante ainda parecia minha opinião sobre dance music, até aquele momento. Parecia verdadeira, mas era baseada em dados antigos e inadequados, como provavelmente é grande parte de nossas opiniões. Ainda assim, tendemos a ver nossas próprias crenças como se fossem conhecimento (em inglês) real. Eu não havia me dado conta do quão rabugenta e obsoleta era minha impressão sobre "música dance". Na realidade, desde a última vez que pensei nisso realmente, o sol nasceu e se pôs quatro mil vezes, guerras foram travadas, fronteiras foram redesenhadas, grandes amores tiveram início e acabaram, gerações pereceram. Crianças que tinham cinco anos de idade na época, hoje dirigem carros e, de alguma forma, eu ainda sinto que tinha uma ideia muito clara do que eu estava perdendo.
Não sei afirmar com certeza o quanto me custou ter dispensado a dança desde cedo. Certamente centenas de noitadas maravilhoas. Certamente dúzias de possíveis amizades e conexões. Certamente isso dificultou meu progresso em relação a timidez e auto-consciência.
Naturalmente minha personalidade foi gradualmente se adequando às características da facção dos bares e se distanciando das da facção dos clubes - em direção a vibrações mais passivas, onde você sentava e falava com as mesmas poucas pessoas, e ficava distante das dinâmicas sociais mais ativas e íntimas. Hoje eu sei que a primeira é menos eu do que a segunda, dado o ponto de vista superior em que me encontro, aos 31 anos. Tudo que sei é que com certeza grande parte do que eu amo foi perdido.
Então essencialmente, aos trinta e um anos de idade, uma grande área da minha vida - como eu saio, como me divirto - ainda era decidida por um juíz de dezenove anos. Eu vejo agora que trabalho ruim este cara de dezenove anos vinha fazendo. Ele não me conhece. Ele não sabe os meus valores, o que realmente gira minha manivela, do que eu devo ter medo ou o que devo procurar. Meu eu de 29 anos não faria bem o papel de me dizer o que fazer. Eu sou uma pessoa diferente dele.
Isto acontece muito. Muito do que você faz hoje (ou não faz) foi decidido pela pessoa que você era há anos atrás, uma pessoa com menos experiência de vida e menos compreensão de seus valores. Sua identidade - no sentido de quem você é para você mesmo e quem você é para os outros - muda ao longo de sua vida, e a pessoa mais qualificada para decidir como gastar seu tempo será sempre quem você é hoje.
Mas frequentemente não funcionamos assim. Funcionamos a partir de conclusões tiradas anos atrás, frequentemente sem a menor ideia de quando as tiramos, ou por que. A maioria de nossas impressões de posicionamento são provavelmente baseadas em uma única experiência - um instante de desprazer ou decepção que o colocou distante de uma categoria inteira de atividades recreacionais, estilos de vida e empreendimentos criativos, para sempre.
Uma conclusão não é o ponto no qual você descobre a verdade, é apenas o ponto no qual a exploração para. Fazemos isso rápida e inconscientemente e os efeitos são muito duradouros. Rapidamente você passa a ter uma crença, um tipo de "fato" substituto em sua cabeça, remanescente de uma época em que você não conhecia nada melhor.
Muitas das coisas que parecem não ser para você, de fato são para você. A pessoa que você era ainda quer que você seja a pessoa que você era.
Crenças são colecionadas como revistas antigas, exceto pelo fato de que, ainda que comandem nosso comportamento, não as vemos realmente, então não pensamos em limpá-las ou selecioná-las. Você pode achar familiar a noção de desafiar suas crenças, mas como de fato faz isso na vida real? Você se senta com uma enorme lista e pensa sobre cada item novamente?
Isso é muito abstrato e muito entediante e, se você já tentou, sabe que não vai chegar a lugar nenhum. Em tempo real, na vida momento a momento, selecionar crenças sobre si mesmo resulta simplesmente em fazer conscientemente coisas que parecem não se encaixar naturalmente no seu perfil, apenas para ver o que acontece. Se você não está fazendo isso regularmente - coisas que parecem não ser do seu feitio - você está definitivamente perdendo muito do que está perto de ser perfeito para você.
Deixe frases como "não é meu tipo" ou "não é pra mim" se tornarem bandeiras vermelhas para você, onde quer que você se ouça pronunciando-as. Qual a idade da pessoa que decidiu isso? Foi mesmo uma decisão, ou apenas uma reação emocional? Quanto realmente você sabe sobre isso?
Pergunte, ou então saiba que seu estilo de vida ainda continua sendo dirigido por uma versão mais jovem e menos experiente de alguém que, francamente, não conhece nada a seu respeito.
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Foto de fabbio
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.