segunda-feira, 8 de julho de 2013

O sol está sempre se pondo

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Durante o verão, eu tento orientar meu dia de tal forma que, ao pôr-do-sol, eu esteja fora, em um lugar onde não haja nada bloqueando a visão. Pores-do-sol sempre valem a pena.
Eles também são fugazes. Ao longo de qualquer experiência encantadora de pôr-do-sol, sempre há um momento no qual você se dá conta que o seu brilho chegou ao auge e começa a desaparecer. Algumas vezes eu chego na ponte ou no fim da Westbound streed e percebo imediatamente que perdi esse auge.
Quando isso acontece, ao menos eu posso demonstrar estar feliz pelos outros espectadores um pouco distantes a oeste de mim, para os quais o pôr-do-sol apenas começou a ficar brilhante. Este fato é um maravilhoso presente para os seres humanos - o sol está sempre se pondo.
Milhares de milhas além deles, no mesmo momento, madrugadores de certas ilhas do Pacífico estão perstes a vê-lo nascer. O sol está sempre se pondo e sempre nascendo, sempre lá no alto e sempre fora do campo de visão. Objetivamente, isto é tão verdadeiro quanto qualquer outra coisa que saibamos. Ele está sempre se pondo, neste exato momento.
Temos que reconhecer que esta verdade é relativa ao observador. Se não houvesse ninguém observando o pôr-do-sol, não haveria pôr-do-sol.
Eu sonho com frequência com os selvagens pores-do-sol que devam estar acontecendo em um zilhão de diferentes céus lá no espaço, na superfície de outros planetas. Existem trilhões de estrelas, com diferentes cores e intensidades, e cada uma pode ser vista a partir de superfícies distintas e a diferentes distâncias, através de diferentes atmosferas, ao longo de inimagináveis paisagens exóticas.
Mas provavelmente não haja ninguém lá para ver a maioria deles, e portanto eles estão realmente acontecendo apenas na minha imaginação. Um pôr-do-sol, enfim, é uma experiência. Portanto você precisa de um experimentador, no local certo, para que ele exista. Você ainda poderia dizer que existem bilhões de pores-do-sol potencialmente experimentáveis por aí, mas eles não são reais até que alguém esteja parado lá naquele mundo estranho, assistindo um ardente pôr-do-sol duplo, azul e verde, lentamente se dissolvendo por sobre algumas montanhas.
A ciência é de longe a instituição mais útil que temos para dar sentido às nossas experiências, e para prever o que poderemos experimentar futuramente. A forma como fazem isso é a seguinte: um monte de pessoas diferentes observa o mesmo fenômeno a partir de diferentes ângulos, em momentos diferentes, e o discutem e definem um conceito sobre o que é este fenômeno quando nenhuma pessoa em particular o esteja assistindo. Eles reunem todas estas conclusões e colocam em livros, os quais têm a função de descrever como as coisas realmente são, independentemente da forma como você as possa perceber pessoalmente.
Para nós, ou para qualquer um, o universo é realmente composto apenas de experiências, ou ao menos ele não tem sentido concebível algum, exceto pela nossa experiência a seu respeito. E isso significa, portanto, que o que o universo realmente é depende de quem está lá para ter estas experiências. Tudo a respeito do universo sobre o que afirmamos ter conhecimento deve estar baseado em experiências diretas. Nenhuma quantidade de dados ou teoria científica sobre pores-do-sol contém a verdade sobre o que eles são. Um pôr-do-sol só pode ser realmente conhecido como uma experiência fugaz e subjetiva.
Este é o único motivo pelo qual nós temos a ciência - para encontrar padrões por trás de nossas experiências. Estes padrões são úteis para a compreensão, pois eles podem nos ajudar a saber, por exemplo, se um evento próximo está mais propenso a criar uma experiência subjetiva de se ficar molhado da chuva ou uma experiência subjetiva de se ficar queimado do sol. Nós nos importamos com estas coisas, porque elas são experiências, e não há nada mais com o que possamos nos importar, pois isso é tudo que a vida é.
Eu penso que estejamos correndo o risco de nos esquecermos que o conhecimento científico está aí para nos ajudar a compreender os prováveis motivos para as experiências que vivemos e, por consequência, para prever e explicar outras experiências, ao invés de nos dizer como a experiência realmente é. O processo científico tem, seja isso bom ou ruim, ajudado a criar uma imagem mental do universo (a qual deve ser no mínimo levemente diferente para cada um de nós) que explica os padrões por trás de todos os tipos de experiências.
No entanto a consequência disso é que ele sempre funciona da mesma forma, não importa se você está olhando para ele daqui ou dali ou nem mesmo esteja olhando. Isso sugere que verdades sejam absolutas, em regra. Nós construímos essa coisa que chamamos de "objetividade" a partir da coleta e organização de um grande monte de experiências subjetivas de diferentes pessoas, e frequentemente imaginamos que esta objetividade estava lá antes, e subjetividade é como chamamos isso quando uma determinada pessoa vislumbra essa objetividade como verdadeira. Mas objetividade é uma projeção - um modelo mental complexo e mutante que foi construído somente a partir da coleta destes vislumbres subjetivos, e fora deles, nós nem mesmo sabemos o que é isso que estamos vislumbrando.
Nós sabemos agora que esta verdade é frequentemente (ou talvez sempre) relativa. Einstein nos ajudou a começar a perceber que não devemos nos referir às verdades aparentes do universo como absolutas (e desde então as coisas se tornaram ainda mais estranhas). Mas nós ainda insistimos no hábito de imaginar que as assim chamadas verdades "objetivas" estavam lá primeiro, antes de sequer termos testemunhado qualquer uma delas - que o sol de fato não se põe; ele está lá queimando abertamente, não importa quem você seja ou onde esteja. Nós nos curvamos diante deste modelo como uma verdade real, e julgamos que nossa experiência pessoal (o pôr-do-sol propriamente dito) seja algo menos verdadeiro - como se o sol não se pusesse realmente, que isto é apenas uma ilusão, ou ao menos uma visão obscurecida do que está realmente acontecendo.
Eu acho que isso está ao contrário. O pôr-do-sol é real. Este é o fato primário, como são todas as experiências. Nós prestamos extremamente pouca atenção na vida como ela se desdobra em tempo real ao nosso redor e muita atenção nos nossos pensamentos e crenças sobre o que ela realmente é e o que realmente significa. O que é mais importante: quanto dinheiro você tem ou o quão ricamente você se experimenta ser? Nós todos sabemos que é possível uma pessoa ter muito mais riqueza em papel do que outra, no entanto sentindo-se pobre e restrita, enquanto a outra percebe abundância. Estes são estados subjetivos, no entanto eles importam mais na vida real do que o resultado objetivo de fatos físicos sobre tais respectivas situações.
O estado do mundo, por exemplo, é uma verdade relativa. É em grande parte relativa à quantidade de notícias que você assiste. Se você é um viciado em CNN, você vive num mundo mais ansioso e perigoso do que eu. Você pode argumentar o dia todo que trata-se do mesmo mundo, mas tudo o que importa é o mundo que você experimenta, e não como o mundo deveria ser fora da sua experiência.
Então amplie, viva daqui. Não permita que outros lhe digam como é o mundo, pois eles vivem em outro mundo. O que importa é como as coisas parecem ser, a partir da sua perspectiva. A sua qualidade de vida se encaixa na sua perspectiva, não no estado teórico do mundo, ou avaliações "objetivas" de sua situação de vida. Eu apostaria que a maioria ou todos os maiores avanços da sua vida resultaram em uma mudança de perspectiva, ao invés de uma mudança em algo externo. Mudanças de perspectiva devem ser cultivadas - gratidão pode ser aprendida, "pessoas más" podem ser perdoadas, você pode mudar por completo - e isto é equivalente a mudar o mundo inteiro.
O sol está se pondo agora? Depende de quem você é.
***
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Honestidade pode ser algo absurdamente rude

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Mentir é uma parte normal de ser educado.
Leitores de longa data sabem que não aceito postagens de convidados aqui, a não ser de duas ou três exceções que são pessoas que convidei. Mas recebo solicitações o tempo todo e tento faze-las desistir afavelmente.
Mesmo que muitas delas estejam provavelmente jogando suas inscrições nos emails em massa, eu pondero que em cada caso possa haver uma pessoa sensível e esperançosa lendo minha resposta, e não quero machuca-la sendo frio. Então, quando rejeito sua oferta, eu adiciono uma mentira. Eu digo que receio.
"Receio que não aceite postagens de convidados no Raptitude."
"Eu não aceito postagens de convidados no Raptitude," soa muito insensível, eu acho, então algum hábito ridículo me leva a afirmar que este fato me assusta, de forma que o remetente saiba que eu acho minha própria política tão imperdoável e insensível quanto ele acha.
Nossos costumes de linguagem estã ocheios deste tipo de isoladores. A verdade, em muitos e muitos casos, é simplesmente bruta ou embaraçosa demais para ser dita como um fato, então adicionamos pequenas ficções.
"Olá, Sr. Smith, eu estava pensando se poderia emprestar sua caminhonete no Sábado à tarde."
Na minha cultura, é normal termos receio de até mesmo perguntar "Posso emprestar sua caminhonete?" Então você liga para o Sr. Smith não para perguntar algo a ele, mas para declarar à ele algo sobre o que você tem pensado. Presumivelmente, você acredita que ele é o tipo de pessoa que vai achar interessante saber sobre quais tópicos você tem ponderado ultimamente, então você ligou pra ele para colocá-lo a par. Talvez ele então terá a ideia de oferecer sua caminhonete para você, de forma que assim você não precisará mais ficar imaginando se é possível que você possa tomá-la emprestado no Sábado à tarde.
Em um restaurante, eu percebo que quando decido que quero o enrolado vegetariano, o que eu não digo ao garçom é "Eu quero o enrolado vegetariano." Eu não quero ser grosseiro. Ao invés disso, eu digo que eu gostaria do enrolado vegetariano, como se não estivéssemos falando do nosso desejo imediato, mas dos hipotéticos em algum universo periférico. Essencialmente eu estou dizendo "Se nos encontrássemos em uma situação onde estivéssemos declarando o que queremos aqui, eu lhe diria que quero o enrolado vegetariano - apenas para que você saiba, qual seja o valor que isso tenha. Faça com essa informação o que desejar."
Eu me lembro de ter tido que fazer voltas correndo ao redor de uma quadra de basquete, enquanto nosso treinador ficava nas arquibancadas gritando "Sorry ("desculpa", em inglês) é a palavra mais mal utilizada da língua inglesa! Não me diga que você lamenta! Você não está lamentando. Ainda não!"
Um colega tinha deixado uma bola fora da caixa, quando deveríamos colocar todas lá. Quando o treinador nos mostrou isso, o jogador pronunciou um irreverente "Oh, lamento." Os olhos do treinador se arregalaram e ele nos fez dar voltas enquanto palestrava sobre o mau uso da palavra "Sorry" na juventude de hoje.
Honestamente, eu nunca tinha pensado nisso. Eu sempre usei a palavra como um reflexo. Eu esqueci que era a mesma palavra usada por autores para descrever prédios agrículas em ruína, crianças de rua de Dickensian que inspiram piedade, e pessoas cujas vidas estão minadas de tristeza.
Este uso inadequado, no entanto, tem sua razão para existir - a maioria das crianças são incentivadas a dizer "Sorry" ("perdão", em inglês) por anos antes de aprenderem que a palavra tem um significado além do costumeiro pedido de desculpas. Elas aprendem o que a palavra realmente significa apenas mais tarde.
Pelo mesmo motivo, a perversão da palavra "Please" ("por favor", em inglês) é ainda mais completa. Primeiramente a aprendemos, quando crianças, como um tipo de senha arbitrária que nos permite (geralmente) ter o que queremos. Normalmente o que queremos nos é vedado no momento em que expressamos que queremos - como se houvesse algo fundamentalmente errado em dizer que você quer algo - até que dizemos "Please". Alguns pais até chamam ela de "a palavra mágica".
A maioria de nós aprende um segundo sentido para a palavra please quando começamos a ler livros. Um pode "please" ("dar prazer", em inglês) o outro, fazendo algo legal para ele. Alguns nunca se dão conta de que o sentido é o mesmo, e que o "please" que dizemos quando queremos algo é apenas uma forma reduzida de "... se você sentir prazer". Então essencialmente é costume não pedirmos algo a alguém sem insistir que não quer que atendam seu pedido a menos que isso lhes cause genuinamente algum prazer em fazê-lo. "Me passe o sal, mas somente se fazer isso será uma experiência prazerosa para você. Não pediria isso em qualquer por qualquer outra razão."
Eu reconheço que dizer "por favor" é apenas educado e sei que repetimos frases que sabemos que são apropriadas sem realmente pensar sobre o que as palavras nelas realmente significam.
Ainda que eu ache que exista muito espaço para franqueza adicional na forma como falamos com os outros, eu não sou favorável à honestidade radical. Não há nada pior do que alguém que não se importa com boas maneiras, alegando que estão apenas sendo "reais" e que "não são de joguinhos, cara". Eu prefiro que haja joguinhos, mesmo isso sendo estúpido. Isso mostra que você não quer ser indiferente com relação às reações que causa nos outros.
Porém me fascina o quão rude é dizer exatamente o que você quer. Dizemos em alto e bom som aos nossos convidados "Bem, melhor eu começar a limpeza...", ao invés de "Gostaria que todos fossem embora agora." Quando foi que ficamos tão embaraçados pelos nossos desejos reais?
Talvez estejamos tão presos à ideia de que somos civilizados e igualitários que não queremos nos dar conta que ainda não chegamos lá. Parece que estamos fingindo que nossa cultura atingiu um nível tal de elegância que os desejos dos outros são simplesmente tão importantes quanto os nossos próprios. Se não, por que é que regras de boa conduta pregam que você deve dizer que só quer o sal passado para você se quem o alcançar sentirá prazer em fazê-lo?
Desta perspectiva, isso parece um senso fortemente enraizado de negação. Nós não somos tão generosos quanto gostaríamos de ser, e é rude não fingir que somos.
Este é apenas o meu palpite. Se você cresceu com isso, é difícil concluir de forma clara de onde isso vem. O que você acha?
Diferentes sociedades têm costumes também totalmente diferentes. Eu adoraria ouvir dos leitores sobre locais onde este tipo de hábitos linguísticos são significantemente diferentes dos do Canadá ou EUA. Quão ridículos são os conjuntos de costumes do seu local quando você realmente pensa sobre eles?
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Foto de stevendepolo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O corpo está no comando e não deixará que você se esqueça disso por muito tempo

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Meu corpo me deu uma lição na noite passada. E eu mereci.
Eu vinha sentindo meu ritmo cainr nas últimas duas semanas, e não era sem motivo. Eu assumi mais compromissos pessoais e sociais e não dei conta deles de maneira satisfatória. Os exercícios diários pararam. Relaxei com minha alimentação. Bebi mais e dormi menos.
O corpo é maravilhoso. Ele conduz você por aí, mantém você em forma, manipula o mundo à sua volta. Ele faz seu trabalho. Ele gera afeição aos que o amam. Ele toca sua vida para você. Nos damos conta da sua generosidade geralmente apenas quando ela começa a diminuir.
O corpo também nos perdoa, talvez até demais. Ele aguentará um monte de porcarias antes de ficar bravo. Ele nos dá conselhos educados o tempo todo - a canseira das 15h, o mau humor, o intestino preguiçoso, as feridas estranhas, a boca seca.
Normalmente estamos muito mentalmente focados e o ruído de uma mente superativa pode nos distrair dos conselhos abruptos de nosso corpo. O corpo quer servir, dar prazer, deixá-lo ser você mesmo. Ele pode lhe permitir beber cinco ou seis doses, vez por outra, mas ele lhe punirá se você beber nove ou dez.
Se você não perceber os avisos subliminares, ele eventualmente lhe pegará pelo pescoço e se fará entender. Eu não mantive minha parte do acordo. Eu não cuidei do meu corpo e fui punido.
Então, pelos dois últimos dias, meu corpo me deu uma vingativa dor de garganta. Engolir era dolorido. Ele me deu dores de cabeça, náuseas e arrepios. Sofrer em posição fetal é sempre uma experiência humilhante. Não restam dúvidas sobre quem é que manda.
Foi difícil arranjar vontade para escrever, para limpar, para preparar o trabalho de amanhã. Estou escrevendo isso em meio a resquícios de náuseas e um pouco dopado pelo Neo-Citron. Tudo é colocado em modo de espera quando o corpo fica farto.
O corpo está bem ciente de sua própria posição executiva. Ele é o chefe, mas geralmente um chefe muito bonzinho. Ele oferece muita liberdade, para que você faça uso dela da forma que sentir prazer, mas ele está, em última instância, no comando sempre. Para lembrá-lo disso, ele derruba você em algum momento todos os dias, diretamente para o chão ou outra superfície horizontal. Ele deixa você embriagado e lento e você perde o interesse em praticamente qualquer outra coisa. Ele lhe tira a consciência. Ele revoga a liberdade que normalmente lhe concede durante o dia.
É fácil deixar o corpo no esquecimento, porque ele perdoa muito e é muito honesto. Normalmente sentimos que o chefe é a nossa mente. Mas a mente realmente recebe ordens do corpo. Quando o ritmo do corpo cai, os pensamentos deslizam para o modo auto-defesa: ressentimento, mentalidade vitimista, narcisismo. O corpo está suprimindo suas qualidades mentais mais altas, para voltar sua atenção ao que é mais urgente.
A mente então perde iluminação e sabedoria, e começa a se fixar no conforto. Muitos deles - mais café, outro filme no Netflix, um cigarro, uma bebida, uma rosquinha - não ajudam o corpo de forma alguma. Então ele aumenta a pressão até ter sua atenção e conseguir passar a mensagem clara: você está me impedindo de fazer meu trabalho.
O corpo é a base absoluta da pirâmide de Maslow. Se você não cuidar dele, ele destruirá tudo aos poucos até que você dê atenção à crise. Você não conseguirá ter foco no seu trabalho, você não terá sensibilidade em seus relacionamentos, seus sonhos entrarão em modo de espera e sua auto-confiança encolherá da mesma forma.
Estilos de vida variam muito. Algumas pessoas têm apenas deslises ocasionais. Elas comem e dormem consideravelmente bem, permanecem ativas e ficam doentes uma vez por ano, quando estão estressadas com o Natal. Outras pessoas comem mal a vida toda. Elas se acostumam a sentir-se preguiçosas ou doentes, então o corpo tem que ir mais além. Ele passa sua mensagem por meio de um ataque cardíaco, diabetes ou um derrame cerebral.
Quem quer que você seja, seu corpo está fazendo muito por você e, se você não paga seus impostos em dia, você será notificado.
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A foto de J thorn explica tudo.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O que os outros deixam para você

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Há outros. Mais do que você pode compreender. Eles estão em toda parte e você conhecerá alguns deles.
Algumas destas outras pessoas se estabelecerão naturalmente como uma figura presente em sua vida, e mudarão a forma como você vê a vida. Isto se chama relacionamento. Se as pessoas permanecem por meses ou anos, sua relação com elas pode começar a parecer permanente.
Não é. Relacionamentos são condições, não coisas. Todos eles têm que terminar em algum ponto. Mas eles deixarão alguma coisa para trás para você.
Existem diferentes tipos, diferentes estilos de conexão entre você e Os Outros: educados, difíceis, românticos, platônicos, confusos. Nós tendemos a enquadrá-los em tipos diferentes - amizades, namoros, casamentos, parceiros de negócios - mas eles são todos fundamentalmente a mesma coisa. Duas pessoas encontram algo em comum, experimentam os pensamentos e ideias umas das outras, absorvem os valores umas das outras e aprendem a partir das histórias um do outro. Personalidades são absorvidas pelas outras pessoas quando estas pessoas ficam próximas o suficiente.
Isto acontece o tempo todo, e sempre é temporário. A afinidade termina e as partes divergem e se afastam. Pode ser depois de 72 horas viajando juntos (em inglês), ou depois de um estágio de verão trabalhando juntos, ou após 55 anos de casamento. Se nada mais terminar com o relacionamento, a morte o fará.
Isto significa que a vida é essencialmente uma viagem solitária. No entanto, você terá esta interminável multidão de visitantes, o que é bom. Personagens que você não imaginava aparecerão, ficarão por um minuto ou talvez alguns meses ou talvez muitos anos, e então deixarão você seguir viagem.
Como regra geral, dê boas vindas aos visitantes. O propósito deles é ajudar o viajante solitário a descobrir como desfrutar do mundo.
A maioria das pessoas vai entrar e sair da sua vida sem que você realmente perceba. Algumas, no entanto, terão grande impacto. Alguns visitantes serão decididamente especiais. Você saberá.
A experiência mais valiosa que uma pessoa pode ter é algo em comum com este tipo de pessoa. A característica que define uma dessas pessoas é que elas tornam impossível que você continue sendo a mesma pessoa quando elas partem.
Cada uma dessas pessoas, no momento em que seus caminhso divergem, terá modificado você de uma forma que é evidente para os outros que o conhecem.
Você provavelmente não entenderá bem o que está acontecendo no momento. No entanto, sentirá algo. A sensação de janelas se abrindo.
Como quer que este encontro se desenrole, sejam quais forem as experiências que o compõem, extasiantes ou detestáveis - alguns meses ou anos de estrada e você está diferente. Você está melhor. Algo que foi difícil agora é fácil, algo que foi assustador é agora familiar, algo sobre o que você se considerava cético, você agora ama.
Você ficará com algumas crenças que não tinha antes. Você valorizará certas coisas mais do que valorizava, e outras coisas, menos.
Talvez você nunca tenha pensado nisso, mas você já passou por isso muitas vezes até hoje. Isto acontecerá repetidamente. Você não tem ideia de quem está a caminho de conhecê-lo. Eles também não fazem ideia.
A qualquer momento, a qualquer tempo, a qualquer dia da sua existência, você pode olhar para sua vida toda como uma vasta coleção de experiências, e reconhecer que elas todas resumem quem você se tornou hoje. Quem você se tornou depende - a um grau que você jamais apreciaria - de com quem você se relacionou enquanto esteve por aí fazendo suas coisas. Você pode ter sido muitas pessoas diferentes.
Todos os relacionamentos são temporários. Eles mudam de forma e textura conforme o tempo passa, e eles eventualmente se vão.
Se foi um relacionamento especial - com um amor, um professor importante, um pai ou mãe - sua ausência pode ser um grande fardo. Quase tangível. Você pode sentir a presença de sua ausência. O Outro se foi. Uma escrivaninha vazia, um travesseiro não utilizado, uma porta aberta sem ninguém ali.
Mas você ainda está lá, e você está melhor do que era.
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Foto de flabber degasky.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A pessoa que você era continua lhe dizendo o que fazer

Post image for The person you used to be still tells you what to do
Assim que eu e meus amigos atingimos a idade exigida para frequentar bares, vi que nos dividimos em duas facções. Haviam os que iam a clubes para dançar e os que iam a um bar para sentar e beber e conversar em voz alta.
Eu odiava os clubes. A música era terrível, barulho de batida eletrônica. Acho que fiz três tentativas de me divertir desta forma, e então eu cometi um erro de longo prazo em termos de julgamento. Eu tirei sobre mim mesmo uma conclusão que eu não tinha qualificação para tirar: dançar não é para mim.
Como se vê, havia necessidade de muito mais investigação. Mas eu nem me preocupei. Eu achei que sabia. Eu suportei três noites maçantes bebendo chopp sob luzes azuis enlouquecidas, fingindo que estava feliz por ter saído de casa, mas silenciosamente me perguntando como alguém podia se permitir balançar seu corpo em sincronia com remixes acelerados de Rick Martin. Então, sem ao menos perceber, eu decidi que não sou do tipo que dança. Eu amo música, mas não o tipo de música que as pessoas dançam.
Uma generalização maluca como esta, se diz respeito a quem você é e sobre o que é ou não o seu tipo, pode afetá-lo por um longo período da sua vida. Pelos doze anos seguintes, todos os convites para sair para dançar foram negados por padrão.
Isto é tudo que você precisa para manter algo fora de sua vida: um único instante em que você diz "Isto não é pra mim." O problema é que não pensamos muito sobre o que exatamente constitui "isto" e portanto estamos sujeitos a descartar, apenas por associação, uma vasta gama de experiências que talvez sejam nosso tipo. Perdemos controle sobre nossos símbolos (em inglês).
Mais cedo, este ano, se quebrou - durante uma viagem, o que parece ser sempre o que eu estou fazendo nos momentos em que me dou conta de um conceito errôneo sobre mim mesmo que já durava muito tempo e acaba de morrer. Eu me encontrava sentado de pernas cruzadas no chão da casa de um amigo, falando sobre música com uma mulher que acabara de conhecer. Gostei dela de imediato e toda vez que ela mencionava algo que eu também gostava, me sentia mais próximo dela.
Quando ela disse que gostava de música dance eletrônica, senti uma pontada de decepção - um pouco menos de conexão, momentaneamente. De alguma forma, aproximadamente meia vida depois de eu ter passado os olhos pela primeira vez por uma sala cheia de pessoas, no final do anos noventa, me dei conta de que parte do que eu havia visto e odiado era algo que a atraía.
E isto é porque eu já sabia que aquilo não era pra mim. Eu sei disso há anos. Eu não danço. Eu acho que disse isso.
No entanto eu já sabia que o gosto dela era excelente, então eu explorei a música sobre a qual ela estava falando, e é claro que não tinha nada a ver como o choque eletro-pop que eu odiava quando adolescente. Era maravilhoso. Despretencioso e refinado.
E hoje eu danço. Eu amo dançar. Eu devia ter feito isso o tempo todo.
Até aquele dia - e felizmente, nunca depois - a imagem que eu tinha em minha mente sobre sair para dançar era a mesma que eu rejeitei doze anos antes: adolescentes bêbados dançando hinos pop insípidos em um terrível clube suburbano.
O que me surpreendeu foi o quão relevante ainda parecia minha opinião sobre dance music, até aquele momento. Parecia verdadeira, mas era baseada em dados antigos e inadequados, como provavelmente é grande parte de nossas opiniões. Ainda assim, tendemos a ver nossas próprias crenças como se fossem conhecimento (em inglês) real. Eu não havia me dado conta do quão rabugenta e obsoleta era minha impressão sobre "música dance". Na realidade, desde a última vez que pensei nisso realmente, o sol nasceu e se pôs quatro mil vezes, guerras foram travadas, fronteiras foram redesenhadas, grandes amores tiveram início e acabaram, gerações pereceram. Crianças que tinham cinco anos de idade na época, hoje dirigem carros e, de alguma forma, eu ainda sinto que tinha uma ideia muito clara do que eu estava perdendo.
Não sei afirmar com certeza o quanto me custou ter dispensado a dança desde cedo. Certamente centenas de noitadas maravilhoas. Certamente dúzias de possíveis amizades e conexões. Certamente isso dificultou meu progresso em relação a timidez e auto-consciência.
Naturalmente minha personalidade foi gradualmente se adequando às características da facção dos bares e se distanciando das da facção dos clubes - em direção a vibrações mais passivas, onde você sentava e falava com as mesmas poucas pessoas, e ficava distante das dinâmicas sociais mais ativas e íntimas. Hoje eu sei que a primeira é menos eu do que a segunda, dado o ponto de vista superior em que me encontro, aos 31 anos. Tudo que sei é que com certeza grande parte do que eu amo foi perdido.
Então essencialmente, aos trinta e um anos de idade, uma grande área da minha vida - como eu saio, como me divirto - ainda era decidida por um juíz de dezenove anos. Eu vejo agora que trabalho ruim este cara de dezenove anos vinha fazendo. Ele não me conhece. Ele não sabe os meus valores, o que realmente gira minha manivela, do que eu devo ter medo ou o que devo procurar. Meu eu de 29 anos não faria bem o papel de me dizer o que fazer. Eu sou uma pessoa diferente dele.
Isto acontece muito. Muito do que você faz hoje (ou não faz) foi decidido pela pessoa que você era há anos atrás, uma pessoa com menos experiência de vida e menos compreensão de seus valores. Sua identidade - no sentido de quem você é para você mesmo e quem você é para os outros - muda ao longo de sua vida, e a pessoa mais qualificada para decidir como gastar seu tempo será sempre quem você é hoje.
Mas frequentemente não funcionamos assim. Funcionamos a partir de conclusões tiradas anos atrás, frequentemente sem a menor ideia de quando as tiramos, ou por que. A maioria de nossas impressões de posicionamento são provavelmente baseadas em uma única experiência - um instante de desprazer ou decepção que o colocou distante de uma categoria inteira de atividades recreacionais, estilos de vida e empreendimentos criativos, para sempre.
Uma conclusão não é o ponto no qual você descobre a verdade, é apenas o ponto no qual a exploração para. Fazemos isso rápida e inconscientemente e os efeitos são muito duradouros. Rapidamente você passa a ter uma crença, um tipo de "fato" substituto em sua cabeça, remanescente de uma época em que você não conhecia nada melhor.
Muitas das coisas que parecem não ser para você, de fato são para você. A pessoa que você era ainda quer que você seja a pessoa que você era.
Crenças são colecionadas como revistas antigas, exceto pelo fato de que, ainda que comandem nosso comportamento, não as vemos realmente, então não pensamos em limpá-las ou selecioná-las. Você pode achar familiar a noção de desafiar suas crenças, mas como de fato faz isso na vida real? Você se senta com uma enorme lista e pensa sobre cada item novamente?
Isso é muito abstrato e muito entediante e, se você já tentou, sabe que não vai chegar a lugar nenhum. Em tempo real, na vida momento a momento, selecionar crenças sobre si mesmo resulta simplesmente em fazer conscientemente coisas que parecem não se encaixar naturalmente no seu perfil, apenas para ver o que acontece. Se você não está fazendo isso regularmente - coisas que parecem não ser do seu feitio - você está definitivamente perdendo muito do que está perto de ser perfeito para você.
Deixe frases como "não é meu tipo" ou "não é pra mim" se tornarem bandeiras vermelhas para você, onde quer que você se ouça pronunciando-as. Qual a idade da pessoa que decidiu isso? Foi mesmo uma decisão, ou apenas uma reação emocional? Quanto realmente você sabe sobre isso?
Pergunte, ou então saiba que seu estilo de vida ainda continua sendo dirigido por uma versão mais jovem e menos experiente de alguém que, francamente, não conhece nada a seu respeito.
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Foto de fabbio
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O que você quer nunca é algo

Imagem para O que você quer nunca é uma coisa
Ele definitivamente achou que não houvesse ninguém por ali, mas nós quatro pudemos ver seu autoconsciente de trás do alojamento, desde antes de ele ter estacionado. Ele saltou, abriu o porta-malas e deixou o motor ligado.
Ele tinha em torno de um metro e meio de altura. Do nosso ponto de vista, parecia um sweater com barba. Empunhando uma pá de plástico que pegou em algum lugar, começou a atirar para dentro do seu porta-malas a terra fresca dos vasos de plantas do tamanho de banheiras que estavam na avenida.
Levei apenas um momento para me dar conta de que o que estávamos assistindo era o desenrolar de um roubo premeditado de terra de qualidade. Os vasos haviam sido preenchidos pelo cara da manutenção do centro comunitário um pouco mais cedo no mesmo dia. Ele havia esperado até que ficasse escuro.
"Quem rouba terra?", perguntou meu amigo, em voz alta e para ninguém em específico.
O homem barbudo pausou, então, com uma visível ausência de pressa, colocou a pá no porta-malas e lentamente foi embora em seu carro, como se nada tivesse acontecido, apesar do porta-malas ainda estar aberto. Nós assistimos enquanto ele se afastava e seguia até o fim da quadra, porta-malas escancarado. Ele efetuou uma parada total no sinal de pare - algo raro de se ver em qualquer circunstância -, fazendo uso total do pisca e desaparecendo em seguida, enquanto nós ríamos.
Por um momento me bateu uma estranha sensação de culpa, porque nós estragamos seu plano. Mesmo que tenha sido um plano estúpido e egoísta, percebi que ele estava apenas tentando melhorar sua posição na vida de alguma forma ínfima, e esta foi a saída que encontrou. Dirigir para longe como um tolo com o porta-malas aberto enquanto nós ríamos dele foi um subproduto de um fiozinho de seu trabalho de vida cotidiano - sua busca pessoal por felicidade.
Podemos dizer que a busca pela felicidade é, sem dúvida, o que direciona tudo que fazemos, independentemente do quão estúpidas sejam essas coisas. Este é um fato peculiar da vida para nossa espécie: bem-estar é tudo o que queremos e precisamos, porém isso é muito delicado e inconstante e, na média, somos embaraçosamente ruins nessa busca.
À primeira vista, pode ser difícil acreditar que pessoas possam fazer coisas terríveis e autodestrutivas em nome da felicidade. Quase tudo que fazemos pode ser atribuído ao anseio pelos sentimentos de segurança, poder ou satisfação, os quais nossos corpos e mentes nos dizem ser os ingredientes da felicidade.
Estes três motivos surgem das partes mais elementares e antigas de nossos cérebros - eles são o que promete à criatura sua melhor chance de sobrevivência e prosperidade. A lógica não tem como competir com estas diretivas, não sem algum trabalho interno minucioso - autoexame e prática, os quais são ambos desconcertantemente subestimados como ferramentas para o cultivo de uma vida mais rica.
E então as pessoas fazem as coisas mais estúpidas na busca pela felicidade. Compram casas que não podem pagar. Envolvem-se em relações perigosas. Gastam milhares no Starbucks. Acumulam tanta velharia inútil em suas garagens que nem conseguem colocar mais seus carros dentro delas. Roubam lojas de conveniência. Explodem sinagogas. Fazem faculdade de Direito sem que realmente desejem isso. Bebem e dirigem. Pedem o mesmo item do menu todas as vezes. Brigam com pessoas nos bares. Vão ao Dr. Phil. Permitem que talentos estagnem e se esvaiam. Acumulam dívidas intransponíveis. Vivem exatamente como seus pais viveram e envergonham os outros por serem diferentes.
É tão bizarro que todos nós tenhamos este interesse único em comum, encontrar o bem-estar, e que gastemos tão pouco tempo realmente falando sobre ele. Você não acha que nossas escolas ensinariam isso.
Não fazemos isso, e provavelmente porque achamos que já sabemos como encontrar a felicidade, o que normalmente envolve a aquisição de algo que ainda não temos. Mais dinheiro, mais segurança, mais afeto. Em outras palavras, pensamos que felicidade se cria através de algum tipo de modificação no mundo material. Passar a possuir algo, eliminar uma ameaça, exercer controle sobre algo.
O erro que cometemos é que confundimos o que queremos com símbolos do que queremos. Nós seres humanos parecemos ser o primeiro animal apto a abstrair, e fazemos muito uso de símbolos. Certos eventos surgem para prometer sentimentos de liberdade, como quando você deixa o escritório numa sexta-feira, ou quando outra pessoa diz que vai livrá-lo de um projeto. Alguns eventos representam sentimentos de valor, como quando todo mundo ri da sua piada, ou quando sua paixão por alguém é correspondida.
Nós temos uma forma de avaliar tudo o que acontece e cada posse que adquirimos, em termos de quais sentimentos acreditamos que sejam prometidos por determinada coisa ou evento. O evento material e os sentimentos que este evento representa não são a mesma coisa. Mas nos esquecemos disso o tempo todo.
Tudo que procuramos e tudo que evitamos são sentimentos. Sentimentos governam o mundo. Eles constituem o único produto útil de todas as transações materiais entre humanos e seu meio ambiente. Exatamente da mesma forma que seu corpo não pode usar o alimento que ingere como energia até que ele seja convertido em glicose, não podemos de fato fazer uso destas coisas que buscamos até que elas nos proporcionem certos sentimentos. Sentimentos são a moeda da experiência humana. Eles são o único incentivo real.
Eu busco dinheiro porque parte de mim sabe que com ele eu posso comprar coisas e fazer coisas que me proporcionarão sentimentos de alegria, segurança, admiração ou liberdade. Eu quero estes sentimentos, então eu frequentemente penso que de fato é o dinheiro que eu quero.
Eu evito engarrafamentos porque uma parte de mim sabe que eles me proporcionarão sentimentos de frustração. Na verdade o que eu quero evitar são os sentimentos de frustração, mas frequentemente acho que uma grande quantidade de carros se movendo lentamente é por si só algo terrível.
Se eu não estou consciente de qual coisa material está simbolizando qual sentimento em minha mente, então eu corro o risco de confundir a coisa material com o que eu realmente quero, ou com o que quero evitar.
O acumulador disfuncional que você vê na televisão perdeu a noção do que realmente quer. Ele está tentando acumular sentimentos de segurança a partir da culpa que sente quando descarta coisas. Suas coisas simbolizam aquele sentimento de segurança para ele, então ele dorme em uma almofada depois de retirar as revistas de cima dela a cada noite.
O terrorista que explode a sinagoga está tentando e explodir seus sentimentos de frustração e impotência, decorrentes da vida em um território ocupado. Ele acredita que encontrará a purificação que precisa fazendo isso.
O marido sobrecarregado que compra muitas casas pensa que está de fato comprando alívio da vergonha que sente por ter crescido pobre. Ele não vai obter tal alívio, e ele pagará caro por sua tentativa. Ele pensa que a casa é o que ele quer.
Todas se tratam de decisões terríveis, tomadas exclusivamente na busca da felicidade.
Todas histórias horríveis no seu jornal são de pessoas em busca de um sentimento que pensaram que as colocaria mais perto da felicidade - ou, mais frequentemente, as colocaria mais distante da felicidade. Elas não se dão conta, no entanto, de que estão em busca de sentimentos. Elas acreditam que uma modificação particular no mundo material é o que elas querem. Um carro maior. Uma liquidação de seguro de vida. Um diploma em Direito. Uma amante morta. Um porta-malas cheio de terra.
Por que somos tão propensos a este engano? Porque nos foi dada uma poderosa ferramenta que ainda não sabemos usar. Nós somos milhões de anos de cérebros de répteis empacotados em uma fina camada de abstração e intuição e razão. É uma configuração poderosa, mas ainda estamos desenvolvendo as técnicas. É por isso que nunca faltaram filósofos tentando desmembrar isso tudo, argumentando sobre a melhor forma de viver.
Algumas formas são melhores do que outras, definitivamente. Não podemos fazer outra coisa a não ser tropeçar em algumas delas por aí afora no mundo, mesmo que não tenhamos intenção nenhuma disso. Mas nesse meio tempo, você estará fazendo melhor do que 90% do todo se habituar-se a pensar sobre quais sentimentos está realmente buscando quando sente que quer algo. O que você quer nunca é algo.
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Foto de tsuacctnt.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Amanhã não é um dia adequado para fazer as coisas


Durante anos eu tenho tentado escrever a maior parte dos meus textos amanhã. Isso nunca funcionou.
Eu não consigo pensar em uma única vez em que eu tenha conseguido escrever meus textos em qualquer outro momento que não hoje.
Historicamente, eu tenho evitado fazê-lo hoje (de todos os dias) porque tenho medo de certos momentos que só podem ocorrer quando eu escrevo hoje. Posso estar na metade de um artigo e me dar conta de que ele não está indo a lugar nenhum. Então, ou o descarto para começar novamente, ou uma tento massageá-lo para transformá-lo em algo que eu não odeie. Este é sempre um momento doloroso e nunca quero que ocorra hoje.
Às vezes o que ocorre é uma versão ainda mais dolorosa deste momento. Eu posso achar que não apenas o artigo atual está uma porcaria, mas a maioria deles está. Não penso assim frequentemente, mas, quando acontece, dói.
Tais momentos não são assustadores de forma alguma quando eu sei que não podem ocorrer hoje. Quando eles são problemas de amanhã, eles se tornam notavelmente fáceis de lidar.
Então minha estratégia, na maioria das vezes, tem sido escrever amanhã. Normalmente eu escrevo hoje apenas quando eu tenho mesmo que fazer isso.
Em algum momento de Sábado de manhã, eu parei de querer escrever amanhã. De agora em diante, só quero escrever hoje. Mentalmente, é um lugar bem diferente do que eu estou acostumado - muito mais otimista, muito mais inspirador - e eu acabei nele após finalmente me deparar com um fato pesado e implacável: Eu não consigo escrever amanhã.
É uma impossibilidade mecânica. Não há nada que você consiga fazer amanhã. Eu jamais fiz alguma coisa amanhã e nem você fez.
Se fazer uma coisa hoje pode causar dor, então ou entregue-se a esta dor ou decida que você definitivamente não está preparado para fazê-la.
Talvez você não escreva, mas eu apostaria dinheiro como existe algo importante que você está sempre tentando fazer amanhã. Boa sorte. Amanhã não é um dia adequado para fazer as coisas.
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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt.