segunda-feira, 14 de maio de 2012

Não importa quem você é, mas o que você faz


Na semana passada, pedi que os leitores respondessem à questão “Onde você se encontra neste momento em sua vida?” Incluindo e-mails, houve algo em torno de 200 respostas até agora. Veja-as aqui (em inglês ou aqui, em português).

Cada pessoa parece estar bem no meio de uma história bastante dramática. Alguns temas emergiram. Diversas pessoas disseram que se encontram em um momento difícil ou de indecisão, incertas sobre qual direção devem tomar. Muitos outros parecem ter passado de um estágio da vida para outro que é novo e nada familiar – se formaram, acabam de terminar uma relação, sofreram uma tragédia.

Parece haver uma alta e desproporcional incidência de preocupação e incerteza. Mas talvez isso seja mais normal do que pensamos. Estes momentos pesados parecem ser exceção enquanto os vivemos, uma vez que mal podemos esperar para voltarmos a nossa vida normal, isto é, para o que geralmente imaginamos que seja normal.

O normal, no entanto, pode ser uma miragem. Quando você vai ao encontro de algum conhecido em uma festa ou algo assim e lhe perguntam como você está, o que você está fazendo, você provavelmente tem uma tendência a “normalizar” a resposta – “Ah, eu continuo trabalhando na [empresa X], jogando tênis uma vez por semana agora, planejando viajar para o Havaí. Está tudo bem.” Você provavelmente deixará de fora qualquer angústia que sinta sobre o momento que está vivendo em sua vida, sobre como você realmente está, sobre para onde você pensa que está dirigindo seus esforços, mesmo que estes pensamentos signifiquem boa parte da vida da maioria das pessoas.

Se você leu todas as diferentes percepções destas pessoas sobre onde elas realmente estão em suas vidas, drama e incerteza são normais, se é que normal tenha mesmo algum significado.

Ainda que eu pense que tenho uma ideia melhor agora, eu geralmente sou egoísta em acreditar que estou praticamente “dobrando a esquina” para finalmente entrar na estrada reta da minha vida. É um tipo de neurose que parecemos ter – a ideia de que existe um ponto a ser atingido na vida a partir do qual não haverá mais nada significante pendente de ser resolvido. Bem, eu acho que esse dia realmente existe: o do nosso enterro. A condição humana pode ser gerenciada, mas não existe uma cura real. Esta pode ser uma notícia fantasticamente libertadora se você estiver pronto para esquecer a ideia de finalmente dobrar a esquina algum dia.

Há, no entanto, avanços a serem feitos. Algumas vezes quando eles acontecem, você sente como se fossem “A Resposta”, mas a euforia se vai quando você se depara com a próxima crise de problemas. Eles podem alterar a sua trajetória de vida, fazendo com que você mude de maneira permanente a forma como lida com as coisas e fazendo com que você nunca mais sinta um determinado tipo de dor. É como se você “passasse de fase” em termos de habilidades em qualidade de vida.

Avanços tendem a vir na forma de tapas na testa, quando você se dá conta que tem sido o causador de seus problemas durante sua vida toda, e você se dá conta que não precisa mais continuar fazendo isso. É bem comum que isto aconteça por meio de uma simples percepção através de algo que você leu ou ouviu alguém dizer.

Após um grande avanço, problemas familiares podem passar a ser vistos de outra forma, deixando de atingir você realmente como problemas. Você pode fazer com que esta nova perspectiva se torne presente em todos os momentos crônicos da sua vida e talvez esta seja a solução do momento, ou talvez não. Mas as coisas serão diferentes.

Eu tive um avanço recentemente que explica uma grande parte dessa dificuldade aparentemente desnecessária que eu tinha na vida. Acho que pode ser relevante para alguns de vocês.

Esforço, explicado


Antes de mais nada, quero deixar claro que não culpo ninguém pelo que aconteceu comigo. Ninguém tentou me prejudicar.

Quando criança, eu demonstrava um talento e uma inteligência excepcionais e eu sempre era elogiado por isso. O problema é que inteligência e talento natos não são coisas que se possa adquirir. É um lance de dados.

A criança que se acostuma a ser enaltecida por coisas que ela alcançou começa a entender que seu sucesso é uma condição de “como as coisas são”. Ela terá sucesso porque ela é quem ela é, não porque ela faz o que faz.

O leitor e também blogueiro Brian Kung publicou um artigo há algumas semanas, identificando a situação como um fenômeno relativamente comum, dizendo que há problemas comportamentais já bem conhecidos na vida adulta de pessoas que, quando crianças, foram enaltecidas exclusivamente por seus talentos.

Conforme eu lia a lista de consequências típicas, comecei a sentir frios na barriga. Era eu. Talvez seja você também.

No fim das contas, a criança acaba associando sucesso e fracasso com traços de personalidade natos e imutáveis, ao invés de entender isso como comportamentos que funcionam e não funcionam. Ela se torna extremamente avessa a correr riscos porque não quer fracassar em algo que faça e passe a ser vista como “burra” ao invés de “esperta”.

Ela fica com medo do fracasso e da rejeição porque acredita que a incidência de fracassos ou rejeições sejam evidências diretas de que ela seja um fracasso ou uma rejeição. Ela evita desafios porque desafios sempre representam uma possibilidade de “se tornar” um fracasso.

Ela não consegue lidar com críticas, porque percebe isso como um desafio a quem ela é, não à forma como está fazendo alguma coisa no momento.

Ela se sente ameaçada pelo sucesso dos outros. Ela não consegue lidar com a perda, então evita competir.

Depois de anos com este tipo de sentimento acompanhando conquistas e objetivos, ela começa a sentir o mundo como determinístico e que esforço extra não substitui a capacidade intrínseca de alguém.

Isto explica tudo. Explica por que eu nunca me inscrevi para intercâmbios, por que deixei de praticar esportes, por que nunca tentei seguir uma carreira que eu pensava que poderia adorar, por que evitei encontros, por que sempre usei roupas sem graça, por que eu costumava sentir medo até de pedir uma pizza, pois poderia me perder no pedido e me sentir envergonhado.

Ela “pode chegar a um determinado patamar muito cedo e não atingir todo o seu potencial.”

Fiquei muito feliz de ler isso. Mais uma vez: não posso culpar os adultos da minha vida pelos encorajamentos que me deram. Ninguém de nós poderia saber dos bizarros efeitos colaterais. O importante é minha percepção de ter tido uma revelação sobre algo que pesava em mim durante a vida toda e isto me deixa entusiasmado para viver o resto dela.
Percepção não basta

Uma percepção por si só, no entanto, não muda a forma como vivemos nossa vida. Ela deve se manifestar como uma mudança comportamental para que a vida mude, e isto não acontece de forma automática. Para mim, isso remete a reduzir a percepção a um mantra ou aforismo, que seja o gatilho para agir de outra forma nestes certos momentos em que você está prestes a cometer seu erro cotidiano.

A revelação foi esta:

Não importa quem você é, mas o que você faz.

É isto que tem me vindo à cabeça sempre que eu percebo que estou levando algo para o lado pessoal. Sucesso e fracasso dizem respeito apenas à validade das ações, não às personalidades. Isto fará alguns bocejarem – eles já vêm lendo coisas parecidas em pôsteres de motivação e em biscoitos da sorte desde sempre. Pois eu também, mas não entendia o significado.

Todas as vezes que eu fracassei, não via outra explicação senão a de que o fracasso fora uma consequência de quem eu era. De alguma forma, eu acreditava que todas as vezes em que fui bem sucedido, isto fora uma consequência direta de minhas qualidades natas e não do meu comportamento usual, então meus fracassos também deveriam seguir a mesma linha de raciocínio. Se eu estragava alguma coisa, não havia a possibilidade de eu apenas ter escolhido fazer algo que não era o mais apropriado, mas tratava-se de uma falha pessoal.

Eu nunca fui responsável por qualquer um deles, sucessos ou fracassos. Somente o mundo em geral poderia me entregar uma ou outra. O mundo em geral optou por chutar meu traseiro.

Se eu não conseguia um emprego, era porque eu era inadequado, e não porque eles apenas não ouviram de mim o que queriam ouvir.

Se eu era rejeitado por uma garota, era porque havia algo errado comigo, não porque naquele momento minha estratégia de aproximação não a intrigou por alguma razão.

Se eu sempre vivi em apartamentos chatos e monótonos, é porque eu sou uma pessoa desinteressante, não porque eu nunca tracei como objetivo ter uma casa como eu gostaria e em uma vizinhança em meio a qual eu desejasse estar.

A diferença entre pessoas que sofrem deste tipo de “determinismo de personalidade” está em entender que você pode usar outra abordagem da próxima vez, e este sempre será o único ajuste necessário.

“Quem você é” é sempre o suficiente. Você sabe que conseguirá da próxima vez ou na seguinte porque você pode tentar algo diferente. Eu sempre assumi que, se eu fracassei em alguma coisa, eu deveria ser outra pessoa para que fosse possível eu ser bem sucedido.

Que inacreditável erro de cálculo! É o que você faz, não quem você é! E eu venho fazendo isso errado por toda minha vida. Talvez você não, mas se isto lhe soar familiar, as coisas podem estar próximas de mudar muito.

Eu estava vivendo ao contrário. Descobri que quem eu sou determinava o que eu faria ou poderia fazer. Por causa de quem eu era, eu não podia fazer X, então sempre tinha que fazer Y. Isso é o que eu era. Acontece que o que eu faço pode mudar a qualquer momento e isto tem um efeito direto na modificação do meu eu. Eu nunca dancei porque eu nunca fui uma “pessoa que dança”. Agora parece óbvio para mim que, tão logo eu dance, apesar da pessoa que eu penso ser, eu rapidamente me torno uma pessoa que dança. É assim que pessoas que dançam se tornam pessoas que dançam. Elas dançam.

Em outras palavras, são os comportamentos que resultam na personalidade, não a personalidade que resulta nos comportamentos; e esta, para mim, é uma revelação que não tem preço.

Isso significa que a personalidade é extraordinariamente maleável, contanto que você não esqueça de que, não só pode fazer o que não é do seu feitio, como fazer o que não é do seu feitio é o único caminho para o crescimento.

Ainda assim, todos nós gravitamos em direção ao confortável, o que equivale a gravitar em direção ao que não nos ajuda a crescer.

De qualquer forma, vejo tudo de forma muito clara agora. Objetivos há muito esquecidos parecem frescos novamente. Eles vão acontecer. Minha personalidade não me limita mais, porque eu vou ignorá-la. Eu farei o que não é do meu feitio e surpreenderei as pessoas que melhor me conhecem. Vou surpreender a mim mesmo.

Mais uma vez, eu sei que existem pessoas que nunca tiveram este problema. Elas estabelecem objetivos de forma confiante, sabendo que serem quem são, não as limita, e que fracassar significa tão somente que o que elas fizeram não era o que iria funcionar.

Ainda assim, eu sei que alguns de vocês sentiram o clique. Suspeito que muitos, até mesmo a maioria de nós, pensa que nossas personalidades são esquemas muito rígidos e que não nos permitem fazer muitas coisas que queremos. Então eu espero que você faça algo que não é do seu feitio hoje e veja se entende o que eu quero dizer.

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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É segunda-feira novamente. Você sabe onde está?

Post image for It’s another Monday morning, do you know where you are?
Não não tenho tatuagens, mas sempre as amei nos outros. Apenas ainda não encontrei nada que eu tenha certeza que quero na minha pele pra sempre. Um mochileiro inglês que conheci, que tinha dúzias de tatuagens, me contou enquanto tomávamos um chá que ele adora as suas porque cada uma o faz lembrar do momento em que estava na sua vida quando ele a fez.
Tentando não ser rude, eu perguntei por que ele achava necessário que cada uma das suas lembranças fosse uma característica permanente do seu corpo.
Ele me respondeu dizendo que não havia nada mais importante para ele do que nunca esquecer que sua vida já foi completamente diferente do que é agora e que foi real. As tatuagens o fazem lembrar que o agora é real, ainda que a vida parecerá muito diferente para ele quando olhar as tatuagens um ano depois de tê-las feito.
“Se eu vou realmente me permitir curtir a vida e não me estressar, eu preciso ao menos saber disso”, ele disse. “Que eu já tive muitas vidas e ainda tenho muitas para viver”. Eu não entendi bem e ele parecia sentir aquilo, até que finalmente o pensamento certo apareceu: “Minhas tatuagens me fazem lembrar que estou aqui.”
Há um ano atrás, eu fiz uma pergunta sobre você e a resposta me surpreendeu completamente. Eu quis saber em que momento da sua vida você está agora, em qual “momento do tempo” você está e como chegou até ele.
O meu momento naquela época parece tão diferente se penso nele hoje, inclusive onde estou fisicamente, o que passa pela minha cabeça, o horizonte que vejo e o que ficou para trás.
Me fascina o fato de todos nós sermos tão complexos e ainda assim é tão raro que saibamos nas próprias palavras de alguém onde este alguém encontra em sua vida neste momento. Cada um dos que caminham pelas ruas tem uma ideia completa e uma história para o momento em que se encontram e é algo totalmente misterioso para nós. Exceto agora, se você dividir conosco.
Então diga-nos: onde você está agora? Como você vê seu momento no tempo?
Adoraria ser atualizado por qualquer um dos que tenham postado da última vez, como também novas histórias.
Conforme falei da outra vez, proceda da seguinte maneira:


Tire os olhos da tela por um momento. Pare de ler por meio minuto e olhe para as pessoas e objetos ao seu redor neste instante. Tente ter uma boa visão do cenário em que está e do tom emocional que está presente. Assim que terminar, continue lendo.
(Faça isso agora.)
Certo, então você está aqui. Primeiramente, onde é “aqui” neste momento, fisicamente falando, e como você chegou a este ponto da sua vida? Como você sente o hoje?
O que está na sua mente? O que é realmente grandioso para você agora? O que é que não sai da sua cabeça? Tudo bem se quiser fazer associações livres.
Para onde você sente que a vida está apontando neste momento? O que está para acontecer? O que parece estar tornando sua vida excitante neste momento?
Mesmo se você não tem o costume de fazer comentários, por favor, faça isso.
Dividirei o meu também mais adiante.

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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Como fazer trilhões de dólares

Post image for How to Make Trillions of Dollars
Antes de iniciar, devo dizer que não recomendo que você faça isso. Vou compartilhar esta estratégia apenas para fins de informação, para que você possa entender o tabuleiro do jogo com o qual está trabalhando e possa fazer escolhas pessoais melhores sobre como ganha e gerencia seu dinheiro.
Eu aconselho você a ser um milionário, se isso lhe interessar. Se é atrás de bilhões que você está, acho um tanto suspeito, mas lhe darei o benefício da dúvida. Aspirar fazer trilhões, no entanto, é estar no domínio apenas dos perversos e não poderemos mais ser amigos.
O dinheiro gordo não está na criação de produtos, mas na criação de consumidores. Um único consumidor vitalício, que passe a vida gastando da forma que você quer que ele gaste, vale seis ou sete dígitos. Um único. Criar milhões destes é a única forma de fazer trilhões.
Você pode fazer milhões vendendo um produto ótimo para pessoas que precisam dele, mas você faz bilhões e trilhões condicionando uma nação inteira de pessoas a reagir a cada inconveniente, cada capricho e cada desejo passageiro ou medo, comprando alguma coisa.
Sim, isto requer algum capital para funcionar. Você não conseguirá gerenciar o negócio com assistentes virtuais estrangeiros, trabalhando a 5 dólares por hora, mas, como eu falei, eu preferiria que você não lutasse para ser um trilionário, pois isso não é algo bom para o restante de nós.
É necessária uma mudança cultural engenhosa. Um pequeno empresário jamais conseguiria gerenciar isso, mas, se você tem algum dinheiro velho sobrando (e alguém sempre tem), então você está em posição de influenciar ou comprar emissoras, políticos e figuras prestigiadas nos meios de comunicação, e você pode estabelecer um novo normal bem rapidamente.
Após a Segunda Guerra Mundial, alguns poucos americanos privilegiados desenvolveram uma fórmula brilhante para construir uma economia enorme e inimaginável:
[Nossa economia] demanda que façamos do consumismo nosso estilo de vida, que convertamos o comprar e o uso de bens em rituais, que procuremos nossas satisfações espirituais no consumismo. A forma de medir status social, aceitação social, prestígio, passará a ser encontrada em nossos padrões de consumo […] Precisamos que as coisas sejam consumidas, queimadas, desgastadas, substituídas e descartadas de forma regularmente crescente. Precisamos que as pessoas comam, bebam, vistam, dirijam, vivam, de forma cada vez mais complexa e que, consequentemente, tenhamos um consumismo que se expanda constantemente e que custe cada vez mais caro.
~American retail analyst Victor Lebow
Isto é marketing de nível muito elevado, e é o que compõe grande parte do mundo desenvolvido ao seu redor.
Usando a televisão como sua ferramenta principal, marqueteiros de nível muito elevado conseguiram criar uma nação que tipicamente:
  • trabalha praticamente o tempo todo
  • absorve diversas horas de comerciais todas as noites, em sua própria casa
  • está cansada e doente, e vagamente insatisfeita com sua vida
  • responde ao tédio, à insatisfação ou ansiedade apenas comprando ou consumindo coisas
  • tem rendimento disponível, mas não consegue encontrar uma linha mais gratificante de trabalho sem perder seu seguro de saúde
  • cria problemas de saúde para si, os quais podem ser tratados com drogas sobre as quais pode “solicitar informações ao seu médico”
  • possui muito mais coisas do que pode utilizar, e acredita não ter o suficiente
  • é facilmente distraída sobre o estado doente em que se encontra sua vida pelas últimas notícias e fofocas sobre celebridades
  • se convence perpetuamente que não é o momento certo para mudar significativamente seu estilo de vida
  • compra alegremente coisas que estragarão em menos de um ano, e que ninguém sabe consertar
  • aprendeu, por meio da cultura da mídia de responsabilizar culpados, que a chave para resolver questões públicas e privadas é encontrar a pessoa certa para odiar
Não que isso seja drasticamente diferente no restante do mundo desenvolvido. Trilionários (ou pelo menos os empregados deles) estão trabalhando contra o relógio para transmitir estes hábitos para as salas de estar em toda parte. Economia enorme, população enorme, influência global.
Pessoas saudáveis – que sabem lidar com frustração, que desistiram da ideia de balas mágicas, que não assistem TV indiscriminadamente, que se sentem satisfeitas com coisas que não custam dinheiro – não são consumidores em potencial, portanto os marqueteiros de nível muito elevado têm alimentado uma cultura que produz exatamente o oposto.
Você está sendo incentivado, virtualmente a partir de todos os ângulos, a se tornar ou permanecer doente e não realizado, porque desta forma você comprará mais. Não é para que você fique paranoico, mas este é o principal objetivo do retângulo brilhante em sua sala de estar – incentivar uma saúde pobre (mas não completamente falha), uma complacência geral e um reflexo inconsciente para torrar dinheiro.
Este não é um grito de guerra para atear fogo no Wal-Mart mais próximo. O anti-capitalismo clichê é coisa de garotos de ensino médio.
Não estou nem dizendo para você atirar sua TV pela janela. Mas este é sem dúvida um movimento de ROI (custo-benefício) muito elevado, caso esta ideia lhe interesse.
Eu nem mesmo recomendo que você nutra ódio pel'O Homem. De fato, é um eufemismo dizer que isso seria estar latindo para a copa de árvore errada. Não há nada lá fora – nenhuma ideologia, metodologia, comportamento ou ideia de alguém – que seja saudável odiar. O Homem faz o que faz porque não sabe fazer nada melhor – ele mesmo é um viciado, com habilidades de vida pobres.
Suas habilidades de vida podem ser transformadas em habilidades superiores, as quais o protegerão de sucumbir aos impulsos destrutivo e auto-destrutivo, tais como (entre outros) o impulso de criar uma cultura de saúde doente, medo e vício, só para você poder curtir sensações exclusivas como a de vestir uma cueca de 10.000 dólares, ou negociar companhias como se fossem cartões de beisebol.
De fato é um Homem triste o que não consegue ter uma vida confortável sem levar centenas de milhões de pessoas ao chão, para tornar mais fácil obter o que está em sua carteira. A esta altura, ele [O Homem] nem mesmo consegue mais voltar atrás – ele já apostou todas as fichas, como dizem.
Então não odeie O Homem, pois isso apenas deixará você mais fraco e distraído do que pode realizar se não seguir suas pistas. Ódio tem um custo-benefício terrivelmente pobre, pelo menos no que diz respeito a qualidade de vida. Se você tem alguma raiva e sente que precisa algum “investimento”, pratique algum esporte de raquete. Direcione sua raiva para longe de qualquer pessoa ou animal e, quando seu ataque de cólera tiver terminado, direcione sua energia para o cultivo de habilidades de vida.
Eu não me refiro a habilidades de vida específicas para situações cotidianas, como trocar pneus, costurar botões de camisa ou abrir portas de banheiros públicos sem tocar na maçaneta, ainda que estas também são certamente úteis.
Aqui, eu me refiro a fundamentos reais sobre ser um ser humano poderoso e auto-direcionado.
Criatividade. Curiosidade. Resistência à distração. Paciência com o próximo.
E, para tornar tudo isso possível: autoconfiança – uma vontade inabalável de assumir responsabilidade pela sua vida, independentemente de quem tiver contribuído para que ela se tornasse o que é hoje.
Cultive estas qualidades em você e nos outros e, quando este estilo de vida se tornar mais normal do que adotar as dicas de estilo de vida de propagandas de descontos em lojas e da CNN, a estratégia trilionária infalível parará de funcionar. Para qualquer um.
Mesmo que parta de um local aparentemente inofensivo – um apartamento médio em algum canto esquecido da sociedade que foi concebido para deixá-lo doente e impotente – estas características farão mais por você do que qualquer postura “Anti” que você possa imaginar. Odiar o sistema é o passatempo americano preferido. É uma sensação boa, é difícil de parar quando você começa e o conduz a precisamente lugar nenhum, de forma não muito diferente do que comer Doritos.
Não se trata de nós contra eles, mas de nós por nós.
Embora O Homem seja em muitos aspectos imaturo, ele tem, sim, muito dinheiro e suas estratégias estarão na sua frente em todo lugar.
Ele projetou seu estilo de vida, desde os anos que você gastou em um emprego que não tem nada a ver com suas paixões, até o anúncio da Ford que você olha fixamente enquanto urina num mictório na Applebee, até o seu tocador de DVD que durou apenas 30 dias a mais do que sua garantia, até o caminho fácil entre seu micro-ondas e seu sofá.
As estratégias para se tornar trilionário que você encontra são tão traiçoeiras pelo fato do quão normais elas se tornaram. Você as encontrará se infiltrando na sua vida não apenas de forma explícita, em revistas e comerciais, mas implicitamente, na forma como as pessoas ao seu redor – até mesmo pessoas que você ama – esperam que você viva.
Você terá que ser incomum. Espero que você já seja.
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Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Precisamos de cada pequena catástrofe

Precisamos de cada pequena catástrofe
Um dia da semana passada eu estava caminhando por uma alegre rua no Queens com uma das minhas pessoas favoritas, mas eu mal estava lá.
Eu estava estressado por uma porção de problemas iminentes, quando um pombo agressivo me tirou dos meus temores. Isso me deixou lúcido por tempo suficiente para me permitir lembrar de um peculiar e relevante fato sobre a vida.
Todo o problema que eu já tive – cada crise de palpitação, cada responsabilidade assustadora, cada quebra de confiança ou expectativa, todas as coisas que eu já achei que não conseguiria controlar – havia passado. Exceto duas ou três coisas.
Sempre foi assim. Em meus 31 anos, encontrei-me periodicamente sendo consumido por crises pessoais circundando meu emprego atual, relacionamento, problemas financeiros ou perspectivas futuras. Tem ocorrido um monte destes ultimamente, e eu estava bem no meio de um quando o pombo me assustou.
Você conhece o tipo. Eles assumem o controle da mente. As coisas parecem estar saindo dos trilhos, você se sente doente preocupando-se como as coisas irão terminar, e começa a desejar ser o seu gato, que só precisa se preocupar se irá deitar no sol agora, ou se vai comer agora e ir para o sol depois.
Algumas destas catástrofes dominaram a minha mente por semanas, algumas apenas durante uma tarde terrível, outros conseguiram arruinar alguns meses.
Eu não sei quantos destes descarrilamentos aconteceram exatamente. Talvez algumas centenas, de uns bem ruins, e talvez alguns milhares que somente me consumiram por um dia ou algo parecido. Trata-se de uma robusta coleção de horrores, um digno tempo de vida de catástrofes. Se eu tivesse documentado todos eles com a minha Nikon, a coleção faria um dramático álbum de tragédia pessoal. Premiado. Todos nós temos um. Todos eles, em qualquer idade que aconteceram, vieram com o sentimento de que a minha vida agora estaria seriamente ferida. Cada um possuía sofrimento suficiente para escurecer a visão de toda a minha vida, me fazendo desejar ser outra pessoa.
E aquela tarde eu estava desesperadamente tentando aproveitar a caminhada na rua, em um lugar que eu amo, com uma pessoa que eu amo, e nenhum deles estava me incomodando nada.
Meu terrível verão de inútil procura por emprego tinha acabado anos atrás. Meu desastroso exame de estatística da faculdade, que me despedaçou na época, não estava na minha mente. Ter sido abandonado por uma garota X anos atrás, um momento no qual a vida pareceu estar em colapso, não parecia problemático.
O que estava me consumindo aquele dia eram três preocupações vivas em cima de uma pilha de milhares de preocupações mortas – uma aguda preocupação financeira, incerteza sobre um relacionamento e a perspectiva de voltar para a força de trabalho após um hiato de quatro meses.
Preocupações se contorcem na cabeça como plantas mutantes, dividindo-se em outras preocupações, obscurecendo a luz, sufocando a sabedoria. Elas germinam em um muro de pensamentos negativos, imaginando um cenário horrível o qual você começa a pensar que é a sua vida a partir de agora. Terrível e incontrolável.
É impressionante o quão bom achamos que somos em prever o futuro quando estamos prevendo um sombrio. Do interior da catástrofe, os tempos fáceis parecem ter acabado, ao menos por enquanto, talvez para sempre. Os maiores parecem prontos para matar você de modo que esquecemos que nenhum deles jamais teve tal capacidade, e que a qualquer momento quase todos eles estarão mortos.
A mente humana, na maior parte do tempo, é bastante infantil. Eu quero isso. Eu quero sair daquilo. Eu não quero perder isso. Eu estou com medo daquilo que vai acontecer.
Nós temos flashes de sabedoria, de coibição e aceitação. Mas a maioria das nossas mentes está pilotando as nossas vidas com instruções e crenças bastante simples. Consiga mais do que você quer, pegue menos do que você não quer. A coisa que eu quero é boa, a coisa que eu não quero é ruim.
A vida nos dá muito daquilo que não queremos. Talvez mais disto do que ela dá na outra categoria. Preocupações em desenvolvimento descem à nossa consciência como emoções – pensamentos grandes e pesados que tomam parte do nosso corpo para se estabelecerem. Eles nos apertam no plexo solar¹, ao redor da boca, nas pálpebras. Eles podem enrubescer a pele, aumentar a temperatura do corpo, embrulhar o estômago.
O corpo responde aos pensamentos temerosos como se estivesse esperando perigo físico. Neste momento, o discernimento parece deixar a sala, como experientes frequentadores de bar fazem quando patrões jovens estão começando a ficar desordeiros e desleixados. Então, a parte de reação da mente é deixada sozinha para avaliar coisas, o que ela só faz com pânico e gritos. Ela desce correndo disparando alarmes. As coisas estão muito más! Meu Deus! Isto nunca deveria ter acontecido! A prudência volta apenas quando você para de surtar. Ela simplesmente não pode trabalhar numa mente em pânico. Os desastres empurram a sabedoria para fora quando eles chegam à sua vida. A catástrofe, depois de tudo, não é uma situação, ela é um fenômeno emocional. A mesma situação pode produzir duas experiências completamente diferentes, dependendo se você rolar com o problema ou não.
Eu tive um período difícil, percebendo isto quando eu estava no meio de um, mas eu preciso de cada pequena catástrofe que tive. O presente é sempre a soma de tudo o que aconteceu antes do agora. Sem todos aqueles flagelos, eu não poderia estar aqui. Cada um pareceu a ruína, porém, pouquíssimos ainda povoam a minha mente agora.
Quando você olha para sua vida em escala, o problema típico é o resolvido. Calamidades não resolvidas são exceções raras quando você considera quantas existiram e quantas possuem algum significado hoje.
Sempre foi desta maneira – cada desastre inevitavelmente desistiu de sua posse emocional, exceto aquela fina borda consistente de duas ou três coisas que estão realmente incomodando você neste exato momento. E eles também irão ceder à outra coisa em breve.
Então, talvez minhas questões-du-jour (Francês: do dia) não deveriam me perturbar tanto, sabendo que não sou eu, mas os meus problemas que estão condenados. Eles estão sentenciados a serem deixados para trás assim como todos os seus irmãos mortos.
Reagir a dilemas com um senso de desgraça é altamente condicionado por muitos de nós, porém, o truque é conhecer quando isto está acontecendo e se lembrar de que catástrofes são estados emocionais, não as situações em si. Aquele sentimento de estacar, no que eu vejo como uma rua sem saída, geralmente me faz cometer todas as coisas que deixam a situação ainda pior: ficar furioso, culpar outros, desejar um deus ex machina² para me salvar.
O que eu realmente deveria estar fazendo é garantindo que eu consiga manter o ritmo. Eu deveria entrar em uma catástrofe com a mesma consciência de expectativas positivas de quando eu estava em uma situação agradável. Eu tenho feito isto com dilemas menores e é incrível como funciona. O problema em si mesmo – a incerteza, a possibilidade de dor ou custo, o cenário em si – não desaparece instantaneamente, mas o seu status como um "problema" às vezes se vaporiza na hora em que eu decido que não vou me afligir sobre o assunto.
Antes de alguém citar, sim, Churchill fez uma observação demasiadamente famosa sobre passar por momentos difíceis: "Quando você está atravessando o inferno, continue indo". Mas é um pouco mais do que isto. Você precisa continuar andando de qualquer maneira, não importa o quão triste você está. O tempo fará com que você eventualmente faça alguma coisa. O que é crucial, no seu pequeno passeio através do inferno, é como você caminha. Postura, velocidade, se os seus olhos estão nos seus pés ou no horizonte – isto é o que transforma desastres vivos em mortos rapidamente.
No outro lado de toda desgraça está a parte boa da vida. Esta é uma verdade perpétua. Todas as catástrofes nos levam eventualmente a prazeres, pessoas novas e maravilhosas, e sentimentos de satisfação própria, de modo que podemos reconhecer que entrar em um problema, é a mesma coisa do que entrar em algo bom que está logo ali. Agarrar-se, augurar e culpar somente prolonga a tempestade emocional ao redor da situação, e a parte emocional é a única razão pela qual os problemas são tão dolorosos.
Você estará caminhando pelo resto de sua vida, não importa o que você faça, e depois das milhares de sessões de preocupações sobre como fazer, as coisas acontecerão da maneira certa. É a marcha da pessoa que determina a qualidade de vida dela, não o que ela está atravessando no momento.
Sim, cada um dos meus desastres foi necessário para me trazer até aqui, e o aqui ainda é um lugar extremamente vantajoso, considerando todos os "finais de mundo" que aconteceram comigo. Eu tenho as coisas boas que eu tenho por causa de todos aqueles problemas, não apesar deles. Não existem ruas sem saídas exceto (talvez) morte, e a qualquer momento a única coisa a fazer é passar para o próximo assunto (em Inglês).
Isso é simples o suficiente para entendermos, porém ainda deixa em aberto a questão de como iremos caminhar pelo resto de nossas vidas – se teremos passos hesitantes, ou se nos recusaremos a dar qualquer passo.
A emoção da perdição simplesmente não faz sentido algum. Não existe uma perdição real na vida cotidiana. Nenhuma das suas catástrofes arruinou você. Elas fizeram você. Se você for como eu, quando você vê coisas dando errado, você quer diminuir o ritmo, evitando mover-se para frente por que você não quer que nada mais dê errado.
Porém, desastres são feitos de papel. Você toma uma decisão ou duas, então atravessa eles como se fossem uma inofensiva loja de esquina, e logo eles estão atrás de você, na enorme pilha de mortos e inofensivos problemas que uma vez lhe deixaram doente.
O céu já caiu milhares de vezes.
***
¹O plexo solar, também conhecido como plexo celíaco, é um agrupamento autônomo de células nervosas no corpo humano localizado atrás do estômago e embaixo do diafragma perto do tronco celíaco na cavidade abdominal. (N. do T.)
²Deus ex machina expressão latina que é utilizada para indicar uma solução inesperada, improvável e mirabolante para terminar uma obra de ficção ou drama. (N. do T.)
Foto de Aussiegal.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Moisés Boff e revisada por Alexandre Heitor Schmidt.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Por que o seu trabalho o decepciona

Post image for Why your work disappoints you
Apenas uma rápida palavra sobre determinado assunto. Se você cria algo como hobby ou trabalho – escrito, artes visuais, música, qualquer coisa – eu acho que isto significará alguma coisa para você. Se você criava e não faz mais, então isto pode ser ainda mais relevante.
Eu não me lembro onde eu vi pela primeira vez mas isto tem sido algo recorrente nos canais sociais de mídia:
"Ninguém conta isto para iniciantes, eu gostaria que alguém tivesse me contado. Todos nós que temos um trabalho criativo, começamos a fazê-lo porque temos bom gosto. Mas aí existe uma lacuna. Durante os primeiros anos, o que você cria, simplesmente não é tão bom. Está tentando ser bom, tem potencial, mas não é. Mas o seu gosto, o motivo que fez você entrar no jogo, continua matador. E o seu gosto é a razão do seu trabalho o desapontar. Muitas pessoas desistem nesta fase. Muitas das pessoas que conheço e que possuem um trabalho interessante e criativo passaram anos por isso. Nós sabemos que o nosso trabalho não possui aquele detalhe especial, o qual queremos que ele tenha. Nós todos passamos por isso. E se você está começando algo ou está nesta fase, você precisa saber que isto é normal e a coisa mais importante que você pode fazer é produzir um monte de trabalhos. Trabalhe com um prazo de modo que toda a semana você termine uma história. Somente através de muito trabalho você irá preencher aquela lacuna e o seu trabalho será tão bom quanto sua ambição. E eu levei mais tempo para descobrir isso do que todas as pessoas que encontrei. Isso levará tempo. É normal que leve um tempo. Você só precisa trilhar o seu caminho através disso." – Ira Glass
Seu gosto é a razão pela qual seu trabalho o desaponta.
Eu acho que isto é um fato da vida para pessoas criativas e nós deveríamos estar aliviados por tudo o que explica. É por isso que pode ser tão difícil sentar em uma cadeira e produzir alguma coisa – é doloroso criar algo que não atinge os seus padrões, e todos nós que somos novos em nossas respectivas artes, com frequência não atingimos as metas que idealizamos.
Isto também explica como escritores e músicos realmente sem talento são mais confiantes e menos inibidos acerca de autopromoção do que os talentosos. Baixos padrões alcançam-se facilmente. Se você é consciente sobre expor o seu trabalho, bom, existe uma razão para isto. Péssimos artistas são ruins porque eles não sabem com que o "bom" se parece. Isto explica o porquê de as pessoas desistirem, mesmo quando enxergaram o quão bom poderiam vir a ser.
A lacuna de habilidade paladar parece ser uma lei imutável do ofício em si e aqueles que tomarem parte nisso irão sofrer dela de alguma forma quase sempre que se acomodarem, ao menos enquanto eles não souberem disto. Fazendo uma retrospectiva, isto é óbvio, mas nunca tinha me ocorrido até eu dar de cara com esta citação alguns meses atrás.
Mesmo sendo uma revelação tão grande, eu a esqueço o tempo todo. Eu esqueço que a maior parte da autotortura que conhecidamente acompanha o trabalho criativo deriva daquele abismo que existe entre o gosto e a habilidade artística, e ele tem todos os motivos para existir. Sentimentos habituais de "eu sou péssimo nisto" não são uma falha, nem uma tragédia particular ou algum tipo de sinal, mas sim que você sabe o que é bom e o que não é.
Então isto é mais um daqueles pontos de natural inquietação na vida humana, em que a nossa melhor escolha é desafiar a nossa inclinação natural como uma questão de hábito e criar, mesmo que isto nos machuque ou nos assuste. "Quando é o melhor momento para praticar?" um estudante perguntou para Dalai Lama. "Quando você achar que não é" ele disse.
Esta não é a mais atraente revelação, mas ela facilita a compreensão de que trabalho ruim é a) normal e b) necessário. O volume de trabalho que Glass refere-se não irá mudar. Só é necessário entrar nele e atravessá-lo, e grande parte dele não será muito boa. Isto não se encaixa naturalmente na minha estratégia normal de evitar tudo o que possa fazer com que eu me sinta mal. Eu não tenho certeza de como isso está afetando a sua vida criativa, mas eu me sinto confiante de que o meu mistério tem companhia.
Hipoteticamente, então, a mentalidade mais saudável para aproximar-se do trabalho seria fazer duas coisas: Primeira: acolher o trabalho ruim quando ele vier – amar ele como amamos crianças arruaceiras só por serem nossas e sem considerar como os outros irão insultá-las. E segundo: sentar e fazer algo com maior frequência, porque nós entendemos que, fazendo uma porcaria bem intencionada, seremos conduzidos ao topo da montanha tão rapidamente quanto nos conduziriam ataques de brilhantismo.
A lacuna de Glass me lembrou de uma antiga metáfora sobre escrever. É como garimpar ouro. Apenas escolhendo palavras, você está procurando por ouro e a maior parte será areia. Mas existem sinais de ouro lá. Você não pode fazer outra coisa a não ser ficar bom nisso e logo não precisará passar por tanta areia. Porém a areia é normal. Ela não deveria preocupar você, não deveria irritá-lo tanto e definitivamente não deveria lhe convencer de que você está procurando no lugar errado.
Hoje (15/03/2012) é o terceiro aniversário do Raptitude. Eu sinto como se sempre tivesse feito isso, escrever, mas isso é realmente novo para mim. Ainda sou uma criança novinha. E isto é um alívio.
Tudo o que estou tentando dizer aqui, ao meus colegas criativos, é que levará um tempo antes de nós sermos bons o suficiente para nós mesmos, mas nós não chegaremos perto sem produzir mais trabalho.
E às vezes atividades criativas são solitárias. Mas você não está sozinho. Nós todos compartilhamos disso. Todos nós batemos nossas cabeças no mesmo muro. Ninguém entenderá completamente o porquê de fazermos isto. Eles não estarão interessados na nossa "areia", e eles provavelmente não entenderão que a areia é uma parte necessária do processo.
Mas nós devemos saber disto.
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Foto de PHOTONQ
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Moisés Boff e revisada por Alexandre Heitor Schmidt.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Morra intencionalmente

chair in the desert
Eu acho muito importante esquecer que você existe, e com frequência.
Parece impossível, mas isso pode ser feito.
Aqui está um exercício que eu faço às vezes, para conseguir esta perspectiva:
Onde quer que eu esteja, não importa o local, eu visualizo a situação exatamente como ela seria se eu não estivesse ali. Eu apenas a observo, como se fosse um filme, e as pessoas que aparecem em cena fossem os atores. Ou talvez nem mesmo tenha alguém por perto, e seja somente um canto vazio do mundo compartilhando um momento consigo. Qualquer que seja a cena, tenho a impressão de estar assistindo remotamente, de um cinema distante. Está tudo acontecendo, mas eu não estou lá.
Eu me concentro em absorver os detalhes sobre como a cena é e com o que ela se parece. O tom de voz dos personagens, seus gestos, a sala em volta deles, o som de fundo. Eu posso deixar que a cena seja como ela é sem qualquer apreensão, porque não estou lá, então não tenho como — nem motivos para — impedi-la ou controlá-la, ou mesmo desejar que fosse diferente.
E algo fantástico acontece: todas as minhas preocupações e interesses simplesmente desaparecem. Eu assisto o momento se desdobrar da forma que deseja. Nenhuma parte de mim é aplicada ao momento; ele apenas se torna o que quer que deseje ser e pouco importa o que acontece. O efeito é emocionante e libertador. Parece ser quase um milagre que algo esteja realmente acontecendo. E é sempre, sempre bonito.
Pense nisso como morrer intencionalmente.
Imagine que você acabou de morrer, neste exato momento. Todas as suas responsabilidades, relações, planos e angústias seriam extintas, como se nunca tivessem nem mesmo sido reais, e o mundo seguiria perfeitamente tranquilo sem suas intervenções, exatamente como era antes de você existir. Não é nada pessoal; apenas a pura verdade.
Suas expectativas e angústias nunca importaram do mesmo. Elas apenas pareceram ser tão críticas porque, enquanto você estava vivo, você tinha o traiçoeiro (porém normal) hábito humano de ver as coisas apenas até o ponto em que elas se relacionam aos seus interesses.
É sério, tente isso. Imagine que você morreu, mas ainda pode ver o que acontece ao redor. Você pode até mesmo perambular pela casa ou pela vizinhança desta forma. Subitamente, o espetáculo que acontece é tudo que importa, e como ele pode afetar você não tem relação nenhuma com o andamento da cena, porque não existe você.
Se você conseguir atingir este estado mental de estar completamente ausente — e não é difícil —, você experimentará a ausência de auto-consciência, de preocupações, de angústias, de medo. Apenas coisas acontecendo. Coisas interessantes. Poético e absurdo e cativante, todos ao mesmo tempo.
A sensação de "não estar ali" é de total clareza. Vai ser como se você tivesse descarregado um peso que nunca soube que carregava.
Quando você conseguir perceber este estado, se dará conta do quanto seus pensamentos diários não estão relacionados a o que realmente acontece, mas com o que existe nele para você e o que não existe nele para você. Estes pensamentos são a origem de toda auto-consciência, do medo, da ânsia e sofrimento existencial.
Não existe sofredor, então não existe sofrimento. Curiosamente, a beleza sobrevive.
Você descobrirá que o que acontece ao seu redor é sempre belo e sem dor, se você conseguir assistir sem julgar de acordo com seus interesses pessoais. E isso é fácil de fazer quando você não está lá.
Portanto morra. Frequentemente.
R
Foto de David Cain.
Esta é uma tradução livre do artigo de David Cain, no Raptitude, realizada por Alexandre Heitor Schmidt, em 28 de Junho de 2014.